Grandes Nomes da Coloproctologia

A História Ilustrada da Coloproctologia e suas estórias

Por: Flávio Antonio Quilici 1

Co-autora: Lisandra Carolina Marques Quilici 2







“Era Antiga”


Atribui-se a Alcméon (510 a.C.) de Crotona, médico e filósofo grego, discípulo de Pitágoras, a frase:

“O homem distingue-se dos demais seres por ser o único que compreende, pois todos os demais percebem mas não compreendem.
m 1.859 a Retocolite Ulcerativa (RCU) foi descrita como entidade nosológica por Samuel “Wilks“ (fig. 134), trabalhando no Hospital Guy de Londres, pelo relato da necrópsia de um caso da enfermidade e que, posteriormente, ele encaminhou sua descrição, po
Essa frase define o que será relatado nessa nossa história da coloproctologia.

O ser humano, como o conhecemos (homo sapiens), tem aproximadamente 200.000 anos de existência, 5.000 de história escrita e 200 anos de grande desenvolvimento técnico-científico.

Talvez tenha sido essa capacidade de transmitir conhecimentos a seus semelhantes que propriciou ao ser humano sua sobrevivência como espécie e, certamente, a que lhe deu a supremacia na escala evolutiva.

A Medicina, no entanto, inicia-se com a própria origem humana.

Teve inicialmente um papel místico, quando as enfermidades eram interpretadas como sendo castigo divino, por pecados, conscientes ou não, do próprio indivíduo ou de seus familiares ou até mesmo de seus amigos.

Achados arqueológicos comprovam cirurgias obstétricas e craniana na era pré-histórica, com utilização de incisões com vários instrumentos feitos de pedra (fig. 1).


Figura 1: Achados arqueológicos pré-históricos de craneos humanos submetidos a trepanações.

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A Coloproctologia, que como especialidade médica poderia nos parecer recente, tem na realidade, uma história documentada de mais de 5.000 anos, incluindo uma série de técnicas operatórias e vários instrumentos cirúrgicos. Todas as culturas antigas fazem menções à coloproctologia, mais ou menos de forma explícita, como a realização do auto-enema na escultura da pré-história (fig. 2).


Figura 2: Escultura pré-histórica mostrando a realização de auto-enema

A coloproctologia egípcia



Uma das maiores descobertas intelectuais da história começou num dia de verão de 1.799, quando soldados de “Napoleão“ acharam, perto da cidade de Roseta, no Egito, um fragmento de basalto negro com inscrições em três línguas: em grego, em caracteres demóticos (escrita egípcia simplificada) e em hieróglifos. Os três escritos pareciam conter a mesma mensagem. Quando os linguistas conseguiram justapor os hieróglifos e o grego, toda a literatura do Egito Antigo foi revelada. Isto aconteceu em 1.822, por Jean-François Champollion, que descobriu que os hieróplifos misturavam significados fonéticos e simbólicos, que alguns textos se liam da direita para a esquerda, outros ao contrário, muitos de cima para baixo, e que alguns símbolos tinham dois sentidos diferentes. A “pedra de Roseta“ (fig. 3) como é conhecida, exposta no Museo Britânico, era um decreto sacerdotal, escrito no ano de 196 a.C., homenageando o Rei Ptolomeu, o Eterno. Essa descoberta permitiu as traduções que revelaram uma preciosidade histórica: os egípcios conheciam medicina, astronomia, geometria, usavam pesos e medidas e tinham um sistema organizado de governo.


Figura 3: Pedra de Roseta datada de 196 a.C.

Assim foram decifrados todos os hieróglifos descobertos até então, permitindo saber que já no período do Antigo Reino Egípcio, como nos escritos da coluna da deusa “Ísis”, de 2.750 anos a.C. (fig. 4), a medicina egípcia mostrava-se bastante adiantada, com a utilização de opiáceos para sedação cirúrgica. Nesta época, não havia somente uma classe médica no Egito, mas existiam especialistas das mais diversas áreas, inclusive para a “extremidade terminal do intestino”, portanto o coloproctologista. Entre os especialistas em doenças anais, um que era médico pessoal do Faraó, tinha o título de “Guardião do Ânus do Faraó” ouguardião da extremidade terminal do intestino real“, como descrito no hieróglifo encontrado em Khoui, Saqqara (fig. 5). Data de 2.550 a.C. a descrição de outros especialistas como o “médico de nariz“ do Faraó Sahure, chamado Sekhet-Enanakh.


Figura 4: Monolito do período do Antigo Reino do Egito (2.750 anos a.C.) com escritos sobre a medicina egípcia e


Figura 5: Hieróglifo do Antigo Império, de Khoui, Saqqara, com referências sobre o médico particular do Faraó, especializado em proctologia, cuja tradução literal é “O Guardião do Ânus do Faraó”.

A história escrita da medicina egípcia, começa cerca de 3.000 anos a.C., de acordo com o Papiro de Edwin Smith (fig. 6) encontrado num túmulo nas cercanias de Tebas (Egito), em 1.862, pelo egiptólogo americano, Edwin Smith e exposto na Sociedade Histórica de Nova York.


Figura 6: Papiro de Edwin Smith, contendo fórmulas médico-místicas do Antigo Egito (3.000 anos a.C.), encontrado em Tebas em 1.862.

Esse papiro era um rolo de 4,68 metros de comprimento e é considerado o primeiro manual cirúrgico dos tempos mais remotos (Antigo Reino) tendo relatos de procedimentos operatórios e trazendo uma descrição primitiva do cérebro e do coração. Contém 13 fórmulas médico-místicas, incluindo tratamentos para doenças intestinais, além de descrições de numerosos tipos de ferimentos e fraturas. Os conhecimentos nele contido são ainda mais antigos que os próprios papiros e, provavelmente, copiado de documentos mais remotos.

Na antiga medicina egípcia há relatos do emprego dos enemas de retenção, do uso de supositórios e purgativos para várias afecções.

Nele encontra-se descrito a existência de uma escola de medicina na cidade de “Edfu“ (fig. 7), instalada junto de um dos seus templos, com amplos jardins, onde eram plantadas as ervas medicinais.


Figura 7: Ruínas da cidade de Edfu onde havia uma escola de medicina

É desta época, o painel de madeira da tumba de “Hesy-Ra”, em Saqqara (fig. 8), na qual está registrada sua titulação, como chefe dos médicos e dentistas, sendo ele reconhecido como o primeiro médico do Egito Antigo que se tem notícia.


Figura 8: “Hesy-Ra” gravado em madeira, chefe dos médicos do Antigo Egito a cerca de 3.000 anos a.C.

A medicina era tida como ciência divina pelos egípcios e seu deus protetor era “Thot” (fig. 9). Já a deusa “Sekhmet“ (fig. 10) era quem trazia as doenças e as mortes para os egípcios.


Figura 9: Deus da medicina egípcia, “Thot“, gravado em hieróglifo e


Figura 10: Estatueta com a imagem da deusa Sekhmet, das doenças e mortes do Egito.

A ave íbis (fig. 11), com suas penas brancas, sua cabeça preta e longo bico, era sagrada para os egípcios. Era considerada a corporificação do deus Thot que através dela havia ensinado aos médicos um dos tratamentos mais importantes para a constipação intestinal, os enemas retais.


Figura 11: Escultura do pássaro ibis que habitava as margens do rio Nilo, cujo bico era referência para a realização de enemas.

Estória:
Diz a lenda que, certa vez, o deus Thot transformou-se no pássaro “íbis” para poder introduzir seu bico cheio d’água, no ânus de um médico que se banhava no Rio Nilo para ensinar-lhe assim, os benefícios dos enemas retais.

Em 1.873 o egigtólogo alemão, Georg Ebers, na cidade de Lúxor, comprou de um árabe, um volumoso rolo de papiro. O árabe dizia tê-lo encontrado no ano de 1.862, na cidade de Tebas, entre as pernas de uma múmia bem conservada. Esse rolo media 20,23 metros de comprimento, contendo ao todo 108 parágrafos em escrita pouco espaçada, de 20 a 22 linhas cada e em bom estado de conservação. O texto iniciava assim: “Começa aqui o livro da produção dos remédios para todas as partes do corpo humano...“.

Sabe-se hoje que o Papiro de Ebers (1.550 anos a.C.) (fig. 12) foi encontrado no santuário do médico-sacerdote “Imhotep“ (fig. 13) e encontra exposto na Universidade de Leipzig, Alemanha.


Figura 12: Papiro de Ebers (1.550 anos a.C.) escrito pelo médico-sacerdote egípcio Imhotep e


Figura 13: Estátua representando o médico-sacerdote egípcio Imhotep.

Imhotep, que significa “aquele que dá satisfação“, viveu na 111º dinastia e foi médico do Faraó Zoser (2.980 a.C.). Ficou conhecido como o pai da medicina egípcia e a ele era atribuído uma grande força curativa e seu culto foi dominante no Antigo Egito. Nesse papiro há 110 regras com preceitos de higiene, um breve tratado de fisiologia humana e receitas para numerosas moléstias digestivas, tais como, hemorróidas, diarreia, vômitos, além de ervas farmacológicas com efeito purgativo e emético. A medicina egípcia usava, segundo esse papiro, a romã para o tratamento das verminoses, o cálamo-aromático contra a disenteria, o açafrão em casos de cólicas abdominais e o levedo nos distúrbios intestinais.

O papiro de Ebers, bem como o papiro de Smith, revelaram-se ser cópia de manuais bem mais antigos, o primeiro sobre medicina interna e o segundo sobre cirurgia. Supõem-se que eram usados nas escolas médicas.

No ano de 1.300 a.C., há a primeira publicação conhecida, somente sobre assuntos proctológicos, no Papiro de Chester Beatty (fig. 14). Ele foi escrito pelo médico “Iri” da 19ª dinastia egípcia e hoje está exposto no Museu Britânico, em Londres. Nele há relatos de tratamentos para doenças intestinais e hemorroidária.


Figura 14: Papiro de Chester Beatty (1.300 anos a.C.) escrito pelo médico egípcio Iri, da 19ª dinastia.


O estudo das múmias egípcias, também auxiliou no conhecimento das doenças desse período, tais como, a existência de apendicite. Numa múmia da 21ª dinastia, Elliot Smith descobriu a presença de cálculos biliares e de prolapso retal.

A coloproctologia assírio-babilônica



Uma das civilizações mais antigas do mundo foi a que começou no vale dos rios Tigre e Eufrates, em torno de 3.500 a.C. Nessa região conhecida como Mesopotâmia (atual Síria) desenvolveram-se povos ricos e poderosos.

Ela iniciou-se com os sumérios que se notabilizaram por criar a escrita cuneiforme (fig. 15), que provavelmente antecedeu todas as outras formas de escrita: os primeiros escritos da Suméria foram achados nas ruínas da antiga cidade de Quish (fig. 16).


Figura 15: Escrita cuneiforme dos sumérios e


Figura 16: As ruínas da cidade de Quish onde eles foram encontrados

Notabilizaram-se também, por edificar cidades-estado, sendo a mais importante, a explêndida cidade de Ur, construída pelo Rei Ur-Nammu (fig. 17), fundador da 3ª dinastia Ur (2.000 a.C.).


Figura 17: Pintura retratando o que pode ter sido a cidade de Ur (2.000 a.C.)

No final do 3º milênio a.C., viveu um médico sumérico que registrou, numa pequena peça de cerâmica, uma dúzia de suas receitas mais valiosas, constituindo o manual médico mais antigo conhecido. Ele distingue-se das coletâneas posteriores por não mencionar deuses, demônios ou magia (fig. 18). Em outros textos de caráter médico há referências a oclusões intestinais, distúrbios biliares e hemorróidas (fig. 19).


Figura 18: Pequena peça de cerâmica aonde um médico sumérico desconhecido, registrou várias de suas receitas, sendo o manual médico mais antigo conhecido, do 3º milênio a.C. e


Figura 19: Monolito do final do 3º milênio a.C. contendo referências a doenças intestinais

No entanto, a mais importante civilização da mesopotâmia foi a babilônica. Quatrocentos mil habitantes viviam na esplêndida cidade da Babilônia, o maior aglomerado humano daquela época. Uma das sete maravilhas do mundo antigo foram seus jardins suspensos, construídos em 600 a.C., às margens do rio Eufrates (fig. 20).


Figura 20: Reprodução de como seriam os jardins suspensos da Babilônia (600 a.C.)

Seu mais importante rei foi “Hamurabi” (1.728-1.686 a.C.), o sexto da 1ª dinastia Amorita, que no ano de 1.793 a.C., estabeleceu uma série de leis, chamadas de “Código de Hamurabi” .

No ano de 1.902, foi descoberto um grande monolito negro de diorito, com mais de dois metros de altura, aonde se vê, na parte superior, o Rei Hamurabi, grande legislador, no momento em que o deus do Sol, “Chamach“, lhe entregava as quase trezentas leis que o tornaram imortal (fig. 21). E na parte inferior do monólito encontram-se os textos do célebre Código de Hamurabi gravados na pedra. Ela foi esculpida na Babilônia e, posteriormente roubada, e levada para a cidade de Susa (atual Irã), aonde foi encontrada e agora está exposta no Museu do Louvre em Paris.


Figura 21: Em A o monolito com o Código de Hamurabi e em B o momento que o deus Chamach entregava as leis ao Rei.

No código há 282 artigos sobre direito processual, saneamento básico, administração pública, etc. Nele, “Hamurabi” incluiu a especificação de honorários médicos e penalizações para suas imperícias. Vem dela a primeira tabela de honorários proctológicos: "Se um doente for curado de uma enfermidade intestinal, o enfermo dará ao doutor, 10 siclos de prata". Esse achado revela, provavelmente, o primerio honorário médico da coloroctologia.


A coloproctologia hindu



O livro mais antigo que se conhece, oRig-Veda (fig. 22) foi escrito há aproximadamente 5.000 anos, na Índia.


Figura 22: Livro mais antigo conhecido, o Rig-Veda, da civilização hindu (5.000 anos a.C.)

A chamada literatura Veda (palavra sânscrita que significa conhecimento) dos hindus compõem-se de quatro livros: Rig-Veda, Sama-Veda, Iadjur-Veda e o Atharva-Veda. No Rig-Veda encontra-se a mais remota fonte de informações, com referências aos sábios que acompanhavam as tribos nômades “com uma sacola repleta de ervas curativas“. Nele existem descrições de doenças, tais como, a tuberculose pulmonar e a lepra, além de orientações para amputação de membros. Os médicos faziam olhos artificiais, curavam os cotos dos membros feridos empregando a “soma“, uma planta que acalmava as dores, e vários tipos de próteses. No último livro, o Atharva-Veda, escrito no ano 700 a.C., encontra-se também, abundante conteúdo médico e conhecimentos anatômicos.

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Buda, quando renegou os vícios humanos por volta do ano 600 a.C. na Índia, abriu uma época de profundo humanismo. É a partir da era budista que o médico hindu desenvolveu o caráter ético. Esse caráter espalhou-se pelo mundo e ainda hoje, distingue sua missão em todos os lugares. Nos livros sagrados do budismo há um nome com realce especial, o do médico “Txaraca” (fig. 23), um grande clínico e cirurgião, que até nossos dias é lembrado pelas operações que realizou, entre as quais, uma de volvo intestinal, descrita como “nó-nas-tripas”. É dessa época a obra sobre a medicina da Índia e preservada para a posteridade, chamada “Txaraca-Samhita“ (Coleção de Txaraca) (fig. 24).


Figura 23: retrato do médico Txaraca e


Figura 24: Texto do livro Txaraca-Samhita

A seguir, desenvolveu-se na Índia a medicina racional com vários tratados médicos escritos em sânscrito por “Atréia“ e “Susruta“. “Atréia” (fig. 25), é considerado o maior clínico hindu e mestre de “Jivaka“, com escola na cidade de Táxila, no atual Paquistão. Ele descreveu e orientou o tratamento de várias doenças, incluindo as abdominais. Ensinou o conceito rudimentar de assepsia e antissepsia, orientou a construção de hospitais e um método para purificar lençóis e cobertores de doentes, com vapor d’água e fumigações.


Figura 25: Imagem do médico Atréia

A cirurgia apresenta grande desenvolvimento na cidade de Benares, e “Susruta” (fig. 26), considerado o maior cirurgião hindu da antiguidade (cerca de 800 anos a.C.), tinha como lema: “o médico que só entende de clínica ou só de cirurgia, é como um pássaro com uma só asa”.


Figura 26: Em A, o médico “Susruta” operando em paciente e em B, ensinando seus alunos

Em seu livroSusruta Samhita (fig. 27) descreveu, entre outras, as cirurgias: de laparotomia, de catarata, a craniotomia e a cistostomia para a retirada de cálculos vesicais. Também ensinou várias técnicas de cirurgia plástica, em especial para o nariz, com a colocação de próteses.


Figura 27: Imagens do livro Susruta Samhita, com referências ao tratamento das hemorróidas, denominadas de Arsa

Estória:

O corte do nariz e das orelhas fazia parte das punições preferidas na época Veda e dos antigos reinados hindus. Daí a importância da sua reconstituição pela cirurgia plástica, como descrito por Susruta em seu livro.

Os materiais para sutura incluíam as fibras de cascas vegetais, cabelos e tendões de animais. Fez menção também, ao tratamento das hemorróidas, chamadas de “Arsa” pelos hindus, dos abscessos e fístulas anais, do prolapso e dos tumores retais.

Estória:

Havia uma estranha técnica cirúrgica, descrita por Susruta, para a sutura de ferimentos intestinais na qual empregava as garras das grandes formigas negras de Bengala (fig. 28) para realizar essas suturas, incluindo anastomoses, com poucas deiscências e infecções.


Figura 28: Figura das grandes formigas negras de Bengala


A coloproctologia hebraica



O religioso povo hebreu invocava, frente às doenças, o auxílio divino e já utilizavam o conhecimento empírico da medicina. No entanto, é necessário lembrar que para os hebreus quem cura é Deus, sendo o médico apenas Seu ajudante. Também é Ele quem envia a enfermidade como castigo e às vezes como provação.

Nos cinco primeiros livros da Bíblia, chamados de o “Velho Testamento“ pelos cristões ou de Torahpara os hebreus (fig. 29), encontra-se o código de leis judeu, o “Talmude”, com 613 mandamentos abordando assuntos civis, penais e religiosos. É difícil enumerar a série de prescrições contidas nele, que unia do religioso ao sanitário e expostas com todos os pormenores. Neles estão preceitos ao asseio individual, tais como, banhos rituais, lavatórios, etc., à abstenção de ingerir certos alimentos, à regulamentação do contato sexual, às precauções anti-epidêmicas, ao isolamento dos enfermos e muito mais. No 5º livro da Bíblia, denominado de “Deuteronômio“, há uma curiosa norma que exigia aos soldados em campanha de enterrar suas fezes.


Figura 29: Torah com o código de leis judeu (Talmude) com referências sobre a coloproctologia

No “Velho Testamento”, existem várias passagens abordando as doenças anorretais e referências sobre as operações das fístulas anais. No livro nº 1, o de “Samuel“ (fig. 30), há descrição detalhada, no capítulo 6, da peste bubônica e com notável clareza de como preveni-la, protegendo-se dos ratos. Relata também, as longas e sangrentas batalhas travadas contra o povo filisteu (1.100 a.C.). Por volta de 1.030 a.C., os filisteus invadiram as terras altas da Judéia e venceram os judeus em Eben-Ezer, roubando seu sacrário portátil, a “Arca da Aliança“. Vem desse fato a passagem contida no capítulo 5, versículo 6: "A ira de Deus cairá na forma de hemorróidas contra os filisteus, por roubarem a Arca da Aliança".


Figura 30: Velho Testamento - 1º livro, o de Samuel

No livro nº 4, denominado de “Números“, (capítulos 13 e 14) há normas médicas para os cuidados com os leprosos, sobre o exame a que eles deveriam ser submetidos pelos sacerdotes-médicos (semiologicamente bem preciso), assim como, a importância do isolamento dos afetados.

Estória:

De acordo com o Velho Testamento, os judeus emigraram para o Egito por volta de 1.730 a.C., época na qual o povo hicso já dominava o país. Foi “Moisés“ (filho do povo judeu e educado nas classes dominantes do Egito) quem, após 400 anos (1.330 a.C.), levou-os para a Palestina, numa marcha de 40 anos pelo deserto. Durante essa marcha, Moisés impôs normas higiênicas rigorosas, na forma de “instruções divinas“, porém, absolutamente necessárias para seu povo sobreviver a essa caminhada monumental. Entre tantas, chama a atenção uma: “Quem tivesse que defecar, deveria afastar-se do acampamento, levando uma pazinha para enterrar, depois seu excremento.“

A coloproctologia chinesa



Para o tradicional pensamento chinês, o conceito cosmológico unificador é o “Tao“ – Mãe do Mundo – que manifesta-se no universo pelos famosos princípios do Yin e Yang (fig. 31). O Yin, significando o feminino, a terra, a escuridão, a debilidade, a doçura, o frio, a umidade e o Yang, o masculino, o céu, a luz, a força, a dureza, o calor, o desapego. O equilíbrio desses fatores é fundamental para o ser humano: sua saúde, serenidade e bem-estar.



Figura 31: Yin, o feminino e o Yang, o masculino

A medicina primitiva chinesa está baseada em três imperadores: Fu-Hsi, o mais antigo; Shen-Nung, considerado o “pai da terapia vegetal“ e Huang-Ti, responsável pelo livro Nei Ching, considerado o “cânon da medicina chinesa“.

“Fu-Hsi“ (fig. 32) viveu em cerca de 2.900 a.C. e foi o criador do “Pa kua“, conjunto de traços de Yin e Yang que representam todas as condições desses elementos dualísticos.


Figura 32: Fu-Hsi, Imperador e criador do “Pa-kua“ (2.900 a.C.)

“Shen-Nung“ (fig. 33), conhecido como o Imperador Vermelho, viveu em cerca de 2.800 a.C. e teria compilado o primeiro herbário médico, relatando mais de 300 fórmulas medicinais extraídas de plantas.


Figura 33: Shen-Nung, o Imperador Vermelho (2.800 a.C.)

Estória:

Shen-Nung, segunda a lenda, teria comprovado pessoalmente os efeitos dos seus fármacos, tomando uma poção mágica que deixava seu abdome transparente, o que possibilitava ver a ação das plantas medicinais no seu organismo.

“Huang-Ti“ (fig. 34), o Imperador Amarelo, viveu aproximadamente em 2.600 a.C. e a ele é atribuído o livro Nei-Ching“ (Doutrina do Interior) (fig. 35). Seu texto básico foi transmitido, oralmente, durante muitos séculos, aonde ele descreveu cinco tipos de tratamento, nesta ordem: curar a alma; nutrir o corpo; administrar medicamentos; usar a acupuntura; e usar a moxibustão. Valorizou a prevenção das doenças e é dele a frase “o melhor médico é o que ajuda antes que surja a doença“.


Figura 34: Huang-Ti, o Imperador Amarelo (2.600 a.C.) e


Figura 35: Livro “Nei-Ching“ da medicina chinesa

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A antiga técnica da “acupuntura“ foi aperfeiçoada pelo grande cirurgião “Hua-Tuo“ (190-265 d.C.) (fig. 36) da dinastia Han, na era dos Três Reinos. Ela tem como objetivo remover obstruções produzidas pela doença nos canais ou “Chin“, para conseguir a boa ordem no movimento dos princípios vitais e assim aliviar a dor e curar (fig. 37).


Figura 36: Hua-Tuo, grande cirurgião chinês e


Figura 37: Chin, os canais da antiga acupuntura

Estória:

Hua-Tuo foi chamado à corte do príncipe Tsao-Tsao, que sofria de intensas dores de cabeça. O médico aconselhou como tratamento a abertura da calota craniana (trepanação) do monarca. No instante que o cirurgião Hua-Tuo preparava-se para iniciar a cirurgia, o príncipe foi tomado de suspeitas de que Hua-Tuo queria assassiná-lo por ordem de algum adversário, mandou prendê-lo imediatamente. Logo após, ele foi executado em uma das celas do palácio.

A técnica da moxibustão, que frequentemente se associava à acupuntura, era preparada com folhas pulverizadas de artemisia vulgaris em bolas pequenas e deixadas arder, com um pouco de incenso, nos lugares perfurados previamente pelas agulhas da acupuntura.

Foi no século II d.C. que o célebre médico e alquimista “Ge-Hong“ (283-343) (fig. 38), oficial do exército chinês da Dinastia Jin, quem primeiro registrou a utilização de fezes humanas de indivíduos saudáveis para o tratamento de pacientes com diarreia aguda. As fezes, ditas saudáveis, eram diluídas em água quente e ingerida pelo enfermo como medicamento, por ele chamado de “sopa amarela“ (fig. 39). É a primeira descrição, na história da medicina, do uso da microbiota intestinal (fezes humanas) como tratamento de doença intestinal.


Figura 38: Ge-Hong, médico e oficial do exército chinês (283-343) e


Figura 39: A “Sopa amarela“ com fezes diluídas em água

“Li-Shizhen“ (1.518-1.593 d.C.) (fig. 40) é considerado o mais importante médico, farmacologista e naturalista da história chinesa. Escreveu o livro “Bencao Gang Nu“ (Compêndio de Matéria Médica), clinicou no Instituto Médico Imperial e foi médico particular do próprio Imperador da dinastia Ming dessa época.


Figura 40: “Li-Shizhen“ (1.518-1.593 d.C.) médico, farmacologista e naturalista da história chinesa

Estória:

Quando o Imperador da dinastia Ming foi acometido de intensa disenteria, seu médico particular, Li-Shizhen, baseado nos resultados conhecidos de Ge-Hong, tratou-o com a “sopa amarela“. Após sua rápida cura, o Imperador agradecido, quis saber qual medicamento o tinha curado - a “sopa amarela” - e até hoje não se sabe qual a resposta de Li-Shizhen para o Imperador.

A coloproctologia grega



Foi na Grécia que a busca da cura dos males do ser humano, começa a abandonar o aspecto sobrenatural das enfermidades e passa a ser estudada cientificamente. O deus da mitologia grega para a Medicina era “Asclépios” (fig. 41), filho de “Apolo”. Na iconografia, Asclépios é representado com um bastão na mão onde há uma serpente enrolada nele, sendo considerado o símbolo da profissão médica.


Figura 41: Escultura de Asclépios, deus da mitologia grega para a Medicina e seu bastão, símbolo até hoje, da medicina

Estória:

Asclépios, filho dos deuses gregos, Apolo e Coronis, foi iniciado na arte de curar pelo centauro Quiron. Aprendeu-a tão bem que conseguia restabelecer a saúde de todos os que o procurava, chegando mesmo a ressuscitar mortos. Isto gerou a ira de Hades que pediu providências a Zeus. Asclépios foi então castigado, sendo fulminado por um raio.

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A Medicina como ciência é personalizada pelo mais célebre médico grego, “Hipócrates” (460-377 a.C.) (fig. 42), nascido no ano de 460 a.C., na ilha grega de Cos (Kós) e considerado o “Pai da Medicina” ou o “Maior Médico da História“ (fig. 43). Filho e discípulo do famoso médico Eródico de Selímbria, foi quem iniciou a valorização da cirurgia como a "arte da cura pelas mãos".


Figura 42: Escultura do médico grego, Hipócrates (460 a.C.), pai da Medicina e


Figura 43: Pintura retratando a ilha grega de Cos aonde nasceu Hipócrates, na qual se vê seu professor, Eródico ensinando a arte da medicina

Hipócrates, dominou as escolas médicas e os médicos de seu tempo. Elevou-se acima da medicina sacerdotal e reuniu em sua pessoa todos os conhecimentos do passado. Propôs novas investigações e conceitos e impôs o pensamento médico mais completo da civilização antiga.

De acordo com os costumes da época, Hipócrates era um médico ambulante e exerceu a medicina por toda a Grécia, e provavelmente, estendeu-a até onde estão hoje a Líbia e o Egito. Com mais idade, ensinou sua arte de curar, na região da Tessália (Grécia), falecendo e sendo enterrado na cidade de Larissa, no ano de 377 a.C.

Hipócrates elaborou para os médicos, um rígido compromisso ético na forma de um juramento, que tornou-se um ícone moral à Medicina, sendo conhecido e respeitado até hoje, determinando as normas comportamentais básicas da conduta profissional dos médicos (fig 44).


Figura 44: Livro da Idade Média com o juramento hipocrático

Dois de seus filhos, Tesolo e Dracón, compilaram seus trabalhos em compêndios denominados de “Corpus Hippocraticum peri Syriggon (fig. 45). Segundo Èmile Littré, seu mais autorizado estudioso, os compêndios contam com 53 assuntos em 72 livros, nos quais julga conter também, estudos de vários de seus discípulos e sucessores.


Figura 45: Um dos livros que compila os conhecimentos de Hipócrates, chamados de "Corpus Hippocraticum peri Syriggon"

Hipócrates ensinava que as hemorróidas eram necessárias ao organismo e sua presença deveria ser respeitada, pois traziam benefícios ao eliminar, através do sangramento, os dejetos do organismo, tais como a pleurisia, os furúnculos e as pústulas, curando inclusive, a melancolia. Por isso, o tratamento das hemorróidas deveria ser feito através da destruição dos mamilos, com o cuidado de se preservar pelo menos um deles. Realizava essa destruição, por meio de cáusticos locais, ou pela excisão e ligadura do mamilo sangrante, ou mesmo pela cauterização com "ferro em brasa". Como cirurgião utilizou vários instrumentos no seu dia a dia (fig 46).


Figura 46: Material cirúrgico da época de Hipócrates (460 a.C.)

Em relação às fístulas anais, orientava seu modo de exploração, a como medir sua extensão e seus vários tratamentos, tais como, pelo uso tópico de substâncias adstringentes para sua cauterização ou pela anodação do trajeto fistuloso. Para a procidência retal, recomendava o tratamento conservador pela redução cuidadosa do reto prolabado e sua fixação por meio de uma bandagem tipo em "T". Ele aborda, pela primeira vez, o uso de um espéculo (fig. 47) para se observar o interior do reto (retoscópio), assim descrito: "descansando o paciente sobre seu dorso, examina-se a parte ulcerada do final do intestino, por meio do espéculo retal". Evidencia também, a importância do esvaziamento intestinal por meio de lavagens para o tratamento dos ferimentos traumáticos abdominais.


Figura 47: Espéculo retal desenvolvido por Hipócrates, encontrado na Casa dos Cirurgiões, na cidade de Pompéia

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Passados aproximadamente 600 anos, no segundo século de nossa era, outro importante médico grego, Cláudio “Galeno” (130 a 201 d.C.), de Pérgamo, publica o livro "As Epidemias" (ano 165 d.C.), onde menciona conceitos médicos que permaneceram aceitos por mais de 1.000 anos (fig. 48). Em seus textos, Galeno utiliza seus conhecimentos da anatomia animal (cães e macacos) e a considera análoga à do ser humano, tal qual Hipócrates acreditava. Suas observações anatômicas assumiram durante muitos séculos, uma sacralidade cristã tão fervorosa que criticar qualquer uma delas era heresia mortal.


Figura 48: Livro "As epidemias" escrito pelo médico grego, Cláudio Galeno,em cuja figura se vê a realização de um toque retal.

No seu livro, ele relata vários tópicos proctológicos, sendo os principais: a descrição dos músculos esfincterianos anais; o tratamento das hemorróidas por meio de “sangria” numa veia do braço do enfermo (fig. 49) com a intensão de deter o fluxo hemorrágico anal; e descreve vários tipos e tamanhos de bisturi, específicos para uso nas cirurgias das fístulas anais, todos com formato de meia-lua e com ponta longa e flexível, aos quais chamou de "syringotomos" (fig. 50).


Figura 49: Pintura retratando a técnica da “sangria” para o tratamento das hemorróidas


Figura 50: Os syringotomos, bisturis utilizados por Galeno para cirurgias das fístulas anais

A coloproctologia árabe



Após a morte de Alexandre, o Grande, em 331 a.C., um de seus generais, Ptolomeu Soter, administrador e posteriormente, o primeiro monarca da dinastia egípcia-macedônica, fundou a Escola de Medicina de Alexandria, na cidade de mesmo nome, ao norte do Egito (século IV a.C.). Nela o ensino era ministrado nos livros denominados “Tratados Médicos” (figura 51), adotando em seu currículo os ensinamentos Hipocráticos. Um dos seus principais professores, foi o cirurgião árabe “Herophilus”.


Figura 51: Livros utilizados na escolas médicas de Alexandria, Egito, nos anos 400 a.C., denominados de Tratados Médicos

A cidade de Alexandria tornou-se então, o centro cultural de onde os conhecimentos foram difundidos aos povos dos domínios macedônicos, da Grécia, do Egito, da Palestina, da Itália e da Persia. Sua biblioteca (fig. 52) é considerada uma das sete maravilhas do mundo antigo e já contava com mais de 700.000 obras (papiros) da era pré-cristã.


Figura 52: Biblioteca de Alexandria, considerada uma das sete maravilhas do mundo antigo e que contava com mais de 700.000 livros na era pré-cristã

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Os árabes, inicialmente um povo nômade de cultura rudimentar, no final do século V d.C. adotam a doutrina religiosa monoteísta, o Islã, pregada por “Maomé“ (Abul al-Qasim Muhammad ibn-Abd Allah ibn-Hashim, 570-632 d.C.). Aí origina-se o Império Árabe que se expande conquistando a Pérsia, o Irã, a Síria, a Tunísia e o sul da Espanha.

Seguindo a tradição da escola de Alexandria, no século VI d.C., Paulus Aegineta (502 a 575), conhecido como “Aécio” de Constantinopla, apresenta um manuscrito que se encontra no Museu Britânico, aonde descreve uma técnica operatória para doença hemorroidária, com o paciente em posição genupeitoral e tração dos mamilos com gancho para sua exposição e incisão circular com bisturi de lâmina ampla (fig. 53). É a primeira descrição de uma hemorroidectomia completa, circunferêncial.


Figura 53: Técnica operatória para doença hemorroidária de “Aécio”, no século VI d.C.

Outro médico proeminente, operando na corte do Califa de Córdoba, foi Abu Al-Qasim (936 a 1.013 d.C.), conhecido como “Abulcasis” (fig. 54), nascido de pais espanhóis e eminente cirurgião da sua época. Em seu livro de 30 capítulos, “Al-Tasrif” (vade-mécum), descreveu várias técnicas para cirurgias proctológicas, em especial das fístulas anais, para as quais indicava a cauterização do trajeto fistuloso com "ferro em brasa" sobre uma sonda acanelada para prevenir a estenose anal.


Figura 54: “Abulcasis” eminente cirurgião que escreveu o livro “Al-Tasrif”

O mais famoso dos médicos árabes, cuja influência estendeu-se durante séculos pelo mundo islâmico e depois pela Europa, foi Abu-Alli al-Husayn ibn-Abdullah ibn-Sina, o “Avicena” (fig. 55), nascido em Afshanah, Pérsia (hoje Iraque) no ano de 980 e falecido em 1.037, de um tumor intestinal, na cidade de Hamadhan.


Figura 55: Retrato do importante médico árabe, Avicena

Ele ensinou e clinicou no hospital de Isphahan, modelo de eficiência e limpeza até para os dias de hoje. O Emir persa o nomeou como seu médico particular e vizir. “Avicena” descreveu em seu livro, Cânon da Medicina (fig. 56), uma técnica cirúrgica, modificada da de Hipócrates, a qual denominou de "anodação da fístula anal", que se caracterizava pela passagem de fio de linho, seda ou crina de cavalo torcida, pelo trajeto fistuloso e através da sua anodação, provocava o gradual corte do tecido pela sua necrose e assim se obtinha a progressiva cicatrização e cura da fístula. Esse método é empregado até os dias atuais e denominado de “técnica do sedenho“, indicado para algumas fístulas complexas. Sua obra permaneceu como o primeiro tratado médico mais utilizado nas universidades européias durante séculos (até o ano 1.650 d.C.).


Figura 56: Em A, livro escrito por Avicena, Cânon da Medicina e em B, com os bisturis utilizados por ele

Outro médico árabe, o cordobês Abu Imram ibn-Maimun (1.135-1.204 d.C.), conhecido como “Maimónides” (fig. 57) em sua obra mais conhecida, “Fusul Musa” (Aforismos), tem um tratado específico sobre os cuidados e o tratamento das hemorróidas.


Figura 57: Retrato do médico árabe Abu Imram ibn-Maimun, conhecido como “Maimónides”

A coloproctologia no Império Romano



A Civilização Romana teve início com a fundação de Roma em 753 a.C. No início do século IV a.C. os romanos constituíram sua República Consular, cujos mandatários, senadores e magistrados eram eleitos anualmente por assembléias populares.

Os romanos nos séculos I e II d.C., ao conquistarem o Império Macedômico, tornaram-se os senhores de Alexandria e os possuidores dos textos gregos clássicos que foram traduzidos para o latim e, assim, os romanos incorporaram todo o seu conteúdo filosófico, médico e cultural.

No período em que viveu Cristo, já havia na cidade de Pompéia, ao sul da Itália (Pompéia foi destruída pela erupção do vulcão Vesúvio em 24 de agosto de 79 d.C.), a "Casa dos Cirurgiões" (fig. 58). Ela foi descoberta nas escavações realizadas nesta cidade em 1.819 e onde foram encontrados instrumentos cirúrgicos de ferro e bronze, havendo inclusive um espéculo para exame retal chamado de catoptro, igual ao descrito por Hipócrates.


Figura 58: Em A, foto do que restou da Casa dos Cirurgiões (cerca de 62-79 d.C.) na cidade de Pompéia e em B, o material cirúrgico que lá era utilizado

É desta época, o cirurgião Aurélus Cornelius “Celsus” (25 a.C. a 38 d.C.), médico particular do Imperador Tibério. Ele publicou em sua principal obra, "De Arte Médica" (fig. 59), que as hemorróidas eram úteis para a purificação do organismo (tal como Hipócrates). Descreve também, uma técnica operatória para as hemorróidas com mamilos de base delgada, que deveriam ser ligados na base de seu pedículo e cortados logo acima (muito semelhante à técnica descrita por Milligan e Morgan em 1.937). Orientou o tratamento das fístulas anais pela abertura do seu trajeto com bisturi, associada à colocação, durante a cirurgia, de um tubo endorretal para evitar aderências e estenoses cicatriciais. Caracterizou na sua obra o quadro clínico da apendicite aguda como a "doença do lado direito do abdome".


Figura 59: Obra médica de Aulus Cornellius Celsus (25 a.C.-38d.C.), De Arte Médica

A coloproctologia européia


Vem da Europa a história de São Fiacro (fig. 60), tido como o padroeiro dos jardineiros e dos coloproctologistas. Ele nasceu no ano de 610 d.C., primogênito de Eugênio IV, Rei da Escócia. Decidiu-se pelo sacerdócio, abandonando a corte escocesa e seguindo para a França onde tornou-se padre e construiu uma capela (até hoje existe suas ruinas), na região de Brie, próxima a Paris (fig. 61).


Figura 60: Imagem de São Fiacro, tido como padroeiro dos coloproctologistas (600 d.C.) e


Figura 61: O que restou de capela da região de Brie, próxima a Paris

Em Brie, São Friaco, adquiriu a fama de obter flores e frutos esplêndidos que cultivava na jardim da capela, além de ser conhecido como benfeitor dos pobres e doentes. Tais fatos, atraíram a inveja do arcebispo de Paris que o castigou, obrigando-o a ficar orando até sua morte, o que ele o fez, sentado em uma pedra ao lado de sua capela. São Fiacro faleceu em 30 de agosto de 670 e foi enterrado na própria capela.

Estória:

A pedra na qual São Fiacro se sentou até sua morte, segundo a lenda, adquiriu o formato de suas nádegas e passou a ser considerada milagrosa, começando daí uma série de peregrinações a esse local, principalmente de pessoas com doenças anorretais, pois se supunha que quem sentava nessa pedra, obtinha a cura das hemorróidas.

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Na Idade Média, entre os anos 1.000 e 1.400, o nome hemorróidas torna-se deselegante, passando a doença a ser denominada de "Mal de São Fiacro". Nesse período, o empalamento é utilizado como forma de tortura e execução. A dissecção de cadáver em toda a Europa é tida como profanação e bruxaria, sendo proibida e castigada com a morte, fato que atrasou em séculos a evolução da Medicina neste continente.

Mas é também, desta época, o início das construções de hospitais e asilos (fig. 62), comandados pelas ordens religiosas, tornando-se exemplos de solidariedade humana. No entanto, o costume da época que colocava mais de um enfermo por cama, trazia outro problema, a contaminação, nos casos de doenças infecciosas, de um paciente para outro.


Figura 62: Desenho representando uma enfermaria de um hospital da Idade Média, com mais de um paciente por leito

Surgem também, as grandes universidades medievais, tais como na Itália, as de Parma (fig. 63) e Bolonha, e na França, as de Paris e Montpellier, e na Inglaterra a de Oxford, onde começa a ser ministrado o ensino da Medicina (fig. 64, A, B e C).


Figura 63: em A, a Universidade de Parma no século XI e em B, livro dessa universidade ensinando o toque retal


Figura 64: Imagens retratando o ensino da Coloproctologia nos livros das universidades medievais: exame anal, hemorróidas sangrantes e a realização de um enema retal

Foi Frederico II (fig. 65), Rei da Itália, que em 1.224, decretou a diferenciação entre os cirurgiões formados nessas universidades, dos chamados "barbeiros cirurgiões" (fig. 66) que faziam seu aprendizado diretamente com outros barbeiros cirurgiões. A partir desse decreto eles passaram a não serem mais aceitos como verdadeiros médicos.


Figura 65: Escultura de Frederico II, Rei da Itália em 1.224 e


Figura 66: Pintura retratando um barbeiro cirurgião do século XIII

As publicações europeias relacionadas com a coloproctologia começaram com os cirurgiões, “Roger” e seu aluno “Roland”, da Universidade de Parma, que em seu livro “Chirurgia”, escrito em 1.170, aconselham o uso da ligadura com pontos para a cirurgia das hemorróidas.

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Nesse período medieval, no ano de 1.306, nasceu em Newark, Notthingham, John “Arderne” (1.306-1.392), que tornou-se, durante a "Guerra dos 100 Anos" entre Inglaterra e França, um grande cirurgião militar inglês. De volta a Londres, em 1.349, ele publica, em latim, sua obra magistral denominada "Practica Magistri Johannis de Arderne" (fig. 67), exposto numa redoma de vidro no Museu Britânico, em Londres. Esse livro é todo sobre assuntos anorretais e por isso Arderne é considerado o primeiro coloproctologista deste milênio, também chamado de “Pai da Coloproctologia”.


Figura 67: Livro sobre assuntos coloproctológicos, “Practica Magistri Johannis de Arderne“

Nela, ele diferencia a trombose hemorroidária dos hematomas perianais e orienta como operá-los. É notável a sua descrição do câncer retal, chamado de “bubo do intestino terminal“, assinalando que o diagnóstico devia ser feito por meio do toque retal. O exame é assim relatado: “colocando-se o dedo no reto do paciente e tocando-se um endurecimento como pedra que dificulta a defecação, trata-se de um tumor e seus sintomas são dor, tenesmo com várias evacuações por hora, com fezes amolecidas mescladas com sangue e muco”. Informava também, a impossibilidade de sua cura.

Para as fístulas perianais, utilizava a cauterização de seu trajeto ou a técnica da "anodação do trajeto fistuloso" (sedenho) como Avicena. Ele é retratado, numa pintura existente no Museu Britânico, realizando um exame proctológico: com o indicador da mão direita, faz o toque retal e com a esquerda, introduz um instrumento para exploração de uma fístula perianal e uma página de seu livro aonde descreve, com perfeição os tipos de fístulas anais e suas abordagens (fig. 68).


Figura 68: Representação em A, de um exame proctológico realizado por John Arderne para exploração de uma fístula anal e em B, um esquema orientando como abordar as fístulas anais

Estória:

No entanto, apesar dos conhecimentos coloproctológicos de Arderne, ironicamente em 1.422, o Rei Henrique V da Inglaterra, morre aos 35 anos, na cidade de Vincennes, França, por infecção de uma fístula anal não operada, durante a Guerra dos 100 Anos.


A coloproctologia das Américas



As civilizações pré-colombianas mais importantes do continente americano (milênio pré-cristão) viveram nas regiões que vão hoje, desde o México até o Peru. A mais importante conhecida foi a dos olmecas (fig. 69), muito antes do nascimento de cristo. Foram eles que iniciaram a escrita (hieróglifos), muito parecida com a dos egípcios (fig. 70), o calendário (fig. 71), as artes nas pedras e as construções de cidades e templos (fig. 72). Tinham o conhecimento da argamassa, do asfalto e da borracha. Os olmecas foram sucedidos pelos astecas, no México, os maias na América Central e os incas no Peru.


Figura 69: Escultura feita pelo povo Olmeca em bloco único de pedra e


Figura 70: Os hieróglifos com o alfabeto asteca


Figura 71: O calendário asteca e


Figura 72: A cidade pré-colombiana dos incas, Machu Ptichu


Estória:

A humanidade perdeu os escritos históricos dessa cultura milenar porque o bispo de Yucatán, México, Diego Landa, mandou incinerar publicamente em 1.562, na cidade de Mani, todos os livros existentes que retratavam essas culturas seculares. O mesmo foi feito em todos as outras regiões conquistas pelos espanhóis. Raros livros chegaram à corte espanhola e encontram-se, atualmente, na Museou do Prado, em Madrid, contendo somente ilustrações sobre anatomia e religião.

Lá praticavam seus rituais e sacrifícios, nos quais os sacerdotes utilizavam bisturis de ouro e pedras preciosas (fig. 73) para abrir o tórax e retirar o coração do(a) sacrificado(a).


Figura 73: Bisturi de ouro e pedras preciosas das civilizações pré-colombianas

Tratavam as doenças mais comuns da época, tais como, malária, diarreia, reumatismo e gota. Há descrições detalhadas sobre a pneumonia e a tuberculose. Usavam a resina de pimenteira contra parasitos intestinais, conheciam vários laxativos e os enemas retais. Faziam uso frequente de trepanações (fig. 74). Tinham instrumental cirúrgico feitos de pedra e várias plantas medicinais, entre elas a coca. Semelhante aos médicos do Antigo Egito, eles também tinham médicos com várias especialidades, tais como, para fraturas, feridas, bexiga e doenças intestinais.


Figura 74: Foto de uma trepanação de crânio com sua reparação em metal (ouro), da era pré-colombiana exposta no Museo Nacional do Peru.

Em 1.565 o médico real, o espanhol Francisco Hernándes (1.517-1578) (fig. 75) de Córdoba, foi enviado pelo rei Felipe II, para as “Índias Ocidentais“ como era chamada a América. Lá compilou uma vastíssima obra com 24 livros e 10 compêndios de figuras (fig. 76), aonde ele descreveu mais de 1.200 medicamentos aí empregados pelos médicos-sacerdotes. Infelizmente sua obra somente foi impressa em 1.628 e de forma bem resumida.


Figura 75: O médico real Francisco Hernándes e


Figura 76: Capa do livro aonde ele descreve mais de 1.200 medicamentos usado pelos incas

“Era Moderna”



A coloproctologia do século XVI

Começa o século XVI, época de brilho e encantamento para a Europa, com o renascimento das artes e das ciências.

Nesse período, as hemorróidas com hemorragias, passam a ter indicação absoluta de cirurgia pela anemia que acarretavam. Também são publicados importantes estudos da anatomia anorretal, produzidos por meio da dissecção de cadáveres, as quais, são novamente permitidas (fig. 77).


Figura 77: Ilustração de uma disseção humana

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O belga Andries Van Wesel (fig. 78), chamado de “Vesalio” (1.514- 1.564), nascido em Bruxelas, cursou medicina em Louvain, Paris e Pádua. Quando estudou na Universidade de Paris, levava seus colegas, à noite, aos cemitérios para “obterem“ cadáveres para dissecção. Recebeu seu diploma de médico na Universidade de Pádua, “com elevada distinção”. No dia seguinte à sua formatura, foi nomeado professor de Cirurgia e no subsequente, começou sua cátedra de Anatomia Humana em Pádua.


Figura 78: Retrato do belga Vesalio

Percebeu que muitas das idéias aceitas sobre anatomia, algumas estabelecidas pelo médico grego Galeno há mais de 1.300 anos, estavam erradas.

Assim, aos 29 anos, em colaboração com o artista Jan Calcar, cria uma obra incrivelmente detalhada e artística, “De Humani Corporis Fabrica Libri Septem, publicada no ano de 1.543, que marca o início da moderna ciência da anatomia (fig. 79). Sua obra prima continha 7 livros, cada um com 42 centímetros de altura, 28 de largura, encadernados em veludo de seda vermelha, com a folha de rosto e a última em permaminho, totalizando setecentas páginas da melhor tipograifa e as ilustrações coloridas à mão. No livro 5 – os órgãos abdominais - fez uma completa e cuidadosa descrição do reto e dos músculos esfincterianos anorretais.


Figura 79: Obra sobre anatomia humana, escrita por Vesalio, chamada De Humani Corporis Fabrica Libri Septem

Sua magistral obra provoca enorme repercusão, porém sendo mal interpretada por todos: é atacada pela Igreja Católica, pelos seus colegas médicos e pela sociedade em geral. Atormentado pelas críticas, “Vesálio” queima suas anotações e vai trabalhar em Madri, em 1.546, como médico do Imperador Romano Carlos V, e após sua morte em 1.556, do seu filho Filipe II, Rei da Espanha. Não faz nova dissecção por vinte anos. Quando recomeça a cortar e abrir corpos é condenado à morte pela Inquisição Espanhola. No entanto o rei, seu amigo, consegue reduzir sua pena à uma peregrinação à Terra Santa, em 1.564.

Estória:

Na volta da sua peregrinação, de Jerusalem para a Espanha, o navio que conduzia Vesálio naufragou durante uma tempestade. No entanto, o médico e cientista conseguiu chegar até a ilha grega de Zakinthos, onde morreu, provavelmente de tifo, segundo alguns, ou afogado, segundo outros historiadores.

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As técnicas operatórias têm, neste século, grande avanço através de proeminentes cirurgiões do renascimento, entre os quais:

- Na França, Ambroise “Paré” (fig. 80) (1.510-1.590), tem enorme importância por revigorar e modernizar a cirurgia, trabalhando no principal hospital de Paris, o “Hôtel Dieu”. Com relação às doenças anais, publica várias técnicas para as operações das fístulas;


Figura 80: Ambroise “Paré” (1.510 a 1.590), médico francês

- Na Itália, Hieronynius Fabrisius de “Aquapendente” (fig. 81) (1.533-1.620), com seu livro “Opera Chirurgica”, identifica claramente as veias hemorroidárias com sendo tributárias da veia cava inferior e não da veia porta. Preocupado com a dor pós-operatória das cirurgia de hemorróidas, afirma que “se há uma parte do organismo dotada de intensa sensibilidade, esta é o ânus”; e


Figura 81: “Aquapendente” (1.533 a 1.620) e seu livro “Opera Chirurgica”

- Na Suíça com Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, conhecido como “Paracelso” (fig. 82) (1.493-1.541).


Figura 82: Retrato de “Paracelso” (1.493-1.541)

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Embora já existissem instalações sanitárias (coletivas e individuais) no ano de 2.000 a.C., como as existentes no palácio de Knossos, na ilha de Creta (fig. 83), até o ano de 1.596, a remoção dos dejetos não havia entrado na idade moderna.


Figura 83: Instalações sanitárias coletivas do palácio de Knossos, ilha de Creta (2.000 a.C.)

Até o reinado de Henrique VIII (1.491-1.547) os vasos sanitários para os nobres (fig. 84) pouco mudaram, como o exposto no Museu Britânico em Londres. Os plebeus nem isso usavam e sim urinóis para uso dentro das casas e buracos no chão, fora delas.


Figura 84: Privada particular do Rei Henrique VIII da Inglaterra

Foi quando, o nobre inglês “John Harington“, inventou o primeiro toalete realmente prático com assento de madeira, caixa-d’água e uma válvula para descarga. Ele foi instalado com o nome de “water closed” (WC) no “Palácio de Richmond“, porém não se espalhou pela Inglaterra, porque as redes de esgoto eram inadequadas e atrasaram a expansão de seu uso por mais 265 anos. Foi quando o encanador inglês “Thomas Crapper“ (1.836-1.910) (fig. 85) fez um sistema avançado de descarga que economizava água (fig. 86), dando início à era dos cuidados sanitários com enorme repercussão no saneamento básico das cidades e na prevenção das enfermidades a ela relacionadas.


Figura 85: Retrato de Thomas Crapper e


Figura 86: O sistema de descarga para a privada idealizada por ele

A coloproctologia dos séculos XVII e XVIII



Nestes séculos, foi amplamente difundida a "teoria da auto-intoxicação" pelas fezes como a causa para as doenças humanas e por isso se tornou rotineiro o uso pela população (nobres e plebeus), dos laxativos e sobretudo, de enemas retais, para a limpeza das “impurezas“ orgânicas (fig. 87). Criou-se até uma mesa para a realização de auto-enemas (fig. 88).


Figura 87: Em A, pintura retratando a realização de um enema retal e em B, os aparelhos utilizados para fazê-lo


Figura 88: Mesa com dispositivo para auto-enema do século XVII, exposto no Hopital Geral de Lyon, França

Foi um comerciante de relógios holandês, Anton van “Leeuwenhoek” (1.632-1.723) (fig. 89) que com lâminas curvadas de vidro, produziu lentes de aumento, tornando-se a primeira pessoa a ver bactérias e espermatozóides (fig. 90). Em agosto de 1.674, quando examinava uma gota d’água de um lago, viu micróbios, que ele chamou de “animálculos”. Assim nasceu a ciência da microbiologia.


Figura 89: Retrato de “Leeuwenhoek” (1.632-1.723) e


Figura 90: O microscópio com lâminas curvadas de vidro que reproduzia lentes de aumento, criado por ele

Pode-se perguntar por que outros cientistas, que tinham microscópios até mais potentes que o dele, deixaram de distinguir a existência de criaturas invisíveis ao olho humano. Provavelmente, foi porque eles só examinavam um objeto para vê-lo maior, enquanto “Leeuwenhoek“ foi além e acabou por identificar que havia “animálculos“ na água, sangue, etc. O trabalho de Leeuwenhoek abriu as portas para Pasteur, Fleming e Darwing.

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No século XVII, o Rei Luis XIV (fig. 91) também possuía sua privada, denominada de “privada real“ (fig. 92) que ficava num dos cômodos do Palácio de Versalhes.


Figura 91: Retrato do Rei Sol, Luis XIV, no Castelo de Versalhes e


Figura 92: Sala no Castelo onde encontra-se exposta a privada real usada pelo Rei Luis XIV

Estória:

Há uma interessante estória sobre o Rei Luis XIV, conhecido como o “Rei Sol“, contada aos turistas que visitam o Palácio de Versalhes e passam pela sala aonde fica a “privada real“. Conta a lenda que a importância do rei era tanta que, quando ele ia defecar, os nobres ficavam do lado de fora da sala aguardando sua evacuação para depois, aplaudi-lo.

No entanto, a verdadeira história encontra-se na Biblioteca Nacional da França, em Paris, onde há uma publicação fascinante do médico real “Antoine D'Aquin”, sob o título "Jornal da Saúde do Rei Luís XIV" .

O “Rei Sol” sofreu de uma fístula anal durante 10 anos, tendo sido tratado com purgantes e caústicos locais para cauterização, sem qualquer melhora. Daí o seu grande sofrimento para defecar, fato que desencadeava grande mau humor no Rei. Porém, ao contrário, quando ele conseguia evacuar havia uma enorme alegria nos nobres presentes, pois isso trazia o bom humor ao rei, com ótima repercussão nas atividades monarquicas, talvez por isso, o motivo das palmas após sua defecação.

Após 10 anos de sofrimento, o principal cirurgião real, “Charles-François Félix de Tassy” (fig. 93) e seu auxiliar “Bessières”, foram chamados para operar o Rei Luis XIV.


Figura 93: Retrato do cirurgião real, “Félix de Tassy” e o material cirúrgico especialmente desenvolvido por ele, para a operação da fístula anal do Rei Luis XIV,

Estória:

Félix de Tassy, como tinha pouca experiência com a enfermidade, além da enorme responsabilidade pelo sucesso dessa cirurgia, ele pediu ao Rei que enviasse seus soldados para as ruas de Paris, para examinar a todos os pobres e mendigos que encontrassem. Os guardas deveriam constatar se eles apresentavam ou não, uma fístula anal semelhante à do Rei Luís XIV. Assim, Tassy operou todos os que as tinham, treinando durante um ano, utilizando as mais variadas técnicas operatórias e com isso, se qualificando para operar “Luís XIV”. Sua opção foi por um “siringotomo” (um bisturi para fístulas desenvolvido por Galeno), em cuja extremidade prolongava-se um estilete para guiar a incisão do canal anal.

A cirurgia foi realizada, com sucesso, no Palácio de Versalhes, no salão Olho de Boi, em 18 de Novembro de 1.686, tendo o Rei 48 anos de idade. Em 15 de janeiro de 1.687, já recuperado e curado, o “Rei Sol” é retratado num quadro passeando alegremente nos jardins de Versalhes (fig. 94). A partir daí, passa a ser elegante na corte européia, ter doenças anais.


Figura 90: O Rei Luis XIV, já recuperado da cirurgia, é retratado passeando nos jardins de Versalhes

O cirurgião “Tassy” foi alvo da inveja geral, devido principalmente, à grande recompensa que recebeu de sua majestade, muito agradecida pelo sucesso da cirurgia. Recebeu em dinheiro, quarenta mil táleres (valor atual aproximado de $400.000,00 dólares americanos) além de uma fazenda. Esta cirurgia de fístula anal, tornou-se a melhor paga de toda a sua história. Em agradecimento o Rei também, deu-lhe um título de nobreza e após fundou a “Academia Real de Cirurgia”.

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Porém, não são somente, as fístulas anais que têm histórias na proctologia. Também as hemorróidas acometeram grandes figuras da humanidade, tais como: o imperador romano Tibério, o educador anglicano Lutero e o cardeal francês Richelieu. Sendo talvez, a história mais trágica, a do Czar Pedro III (fig. 95), Imperador da Rússia, que morreu em 5 de Janeiro de 1.762, em São Petersburgo, de hemorragia no pós-operatório de uma hemorroidectomia.


Figura 95: Retrato do Czar Pedro III, Imperador da Rússia

A Inglaterra teve, nesta época, um notável cirurgião, Richard “Wiseman” (1.622-1.684) responsável pelo livro “Severall Chirurgical Treatises” (fig. 96) de 1.676, onde descreveu o tratamento de tumores, úlceras e problemas anais.


Figura 96: Cópia do livro de Richard Wiseman

Anos mais tarde, seu conterrâneo, o não menos notável cirurgião Sir Percival “Pott” (1.714-1.788), que possuía a maior clínica cirúrgica de Londres e operava no Hospital St. Bartholomew. Ele escreveu magistrais tratados sobre hérnias, hidroceles e, em especial, fístulas anais (fig. 97).


Figura 97: Pintura do cirurgião Sir Percival Pott e seu livro de 1.768

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É desta época também, o anatomista e patologista italiano, Giovanni Battista “Morgagni” (1.682-1.771) (fig. 98), professor na Universidade de Pádua durante 60 anos e considerado o “pai da Anatomia Patológica”. Ele publicou, em 1.761, “De Sedillus et Causis Morborum per Anatomen Indagatis, uma obra-prima de observação de órgãos doentes comparados a órgãos normais. Fez detalhada descrição das criptas anais que por isso têm seu nome. Estudando a doença hemorroidária, identificou que elas não existiam nos animais e relacionou sua etiologia à posição vertical do homem associada à ausência das válulas venosas na circulação retal.


Figura 98: Livro “De Sedillus et Causis Morborum per Anatomen Indagatis”, obra-prima do anatomista e patologista italiano, Morgagni

A coloproctologia do século XIX



É no século XIX que se inicia o grande avanço em todas as áreas da medicina, sendo chamada de “A Era da Medicina Moderna“.

Guillaume “Dupuytren” (1.777-1.835) (fig. 99), professor de cirurgia da Faculdade de Medicina de Paris, publica entre outros, os livros "Doenças do Reto e Suas Complicações Cirúrgicas" e "Enterotomia para o Fechamento da Fístula Fecal", ambos de grande repercussão.


Figura 99: Retrato de Guillaume “Dupuytren” (1.777-1.835)

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John “Houston” (1.802-1.845) (fig. 100) nasceu na Irlanda do Norte e foi adotado por um tio médico. Influênciado pelo tio, formou-se médico na Universidade de Edimburgh tornando-se um exelente cirurgião. Em Dublin, Escócia, ele publicou em 1.830, um importante estudo sobre a anatomia retal, muito preciso e pelo qual, as válvulas do reto têm seu nome.


Figura 100: Retrato do cirurgião irlandês, John “Houston”

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Viveu neste período, o cirurgião geral e ginecologista norte-americano, James Marion “Sims” (1.813-1.883) (fig. 101), que foi importante na área proctológica, aonde contribuíu com vários instrumentos, entre os quais um espéculo anal e uma mesa para exame proctológico.


Figura 101:Retrato de James Marion “Sims” (1.813-1.883)

O emprego da cauterização dos mamilos hemorroidários com cloreto de zinco, descrita por ele, passou a ser empregada por quase todos os cirurgiões desta época, entre os quais: Nelaton, Velpeau, Denonvilliers e Richet. A posição lateralizada do paciente para a realização do exame anorretal, proposta por ele perpetuou seu nome.

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Na França, “Edmund Delorme“ (1.847-1.929) (fig. 102), nascido em Lunéville, França, formou-se na Escola Militar de Medicina, em Strasbourg, em 1.866. Foi chefe do serviço médico do Exército da França e membro da Academia de Medicina Francesa. Contribuiu para a cirurgia das feridas de guerra, fraturas, decorticação pulmonar e cirurgia retal. Sua publicação sobre uma técnica de correção cirúrgica para o prolapso retal, utilizada por ele em três pacientes, leva seu nome até hoje.


Figura 102: Retrato do cirurgião militar Edmund Delorme

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Em Paris, nasceu “Jean-Alfred Fournier“ (1.832-1.914) (fig. 103). Formou-se médico em 1.860 na Faculdade de Medicina da Universidade de Paris. Foi pioneiro no diagnóstico e tratamento das doenças venéreas e, provavelmente, teve a maior clientela de pacientes sifilíticos. Tornou-se mundialmente conhecido pela descrição das infecções anaeróbicas necrotizantes de períneo, cuja síndrome tem, até hoje, seu nome.


Figura 103: Retrato do cirurgião Jean-Alfred Fournier

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Nasceu em Gravesend, Inglaterra, “David Henry Goodsall“ (1.843-1.906) (fig. 104). Em 1.870 tornou-se importante cirurgião do St. Mark’s Hospital, onde operou com “Salmon“. Seu maior interesse foram as cirurgias retais. Publicou vários trabalhos sobre corpos estranhos no reto, cisto pilonidal, colostomia e fissura anal. Escreveu, juntamente com W. Ernest Miles, um livro denominado de Diseases of the Anus and Rectum. Nele, no capítulo sobre fístulas anais, expôs pela primeira vez, a regra para encontrar o orfício interno das fístulas, a qual tem seu nome.


Figura 104: Retrato do cirurgião David Henry Goodsall

Estória:

Seu pai, também médico, quando realizava uma necrópcia no St. Bartholomew’s Hospital, em Londres, feriu sua mão e morreu rapidamente de sépsis. A morte trágica de seu pai foi um importante estímulo, para o jovem Goodsall, no exercício da medicina.

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Nessa época o marechal Napoleão Bonaparte (fig. 105) era “O Grande Imperador da França“ e conhecido por ser um exímio estrategista no campo de batalha, porém de saúde frágil: sofria de epilepsia e era portador de úlcera gástrica.


Figura 105: Pintura de Napoleão Bonaparte em batalha

Estória:

É dessa época porém, talvez o fato mais polêmico relacionado à doença hemorroidária. Diz respeito à “batalha de Waterloo“, (fig. 106) acontecida na Bélgica, em 18 de Janeiro de 1.815, aonde o grande “Napoleão” teria tido uma crise de “trombose hemorroidária” no início das batalhas, fato que o impediu de montar seu cavalo por dias. Por isso, ele teria permanecido em sua tenda na posição genupeitoral, perdendo um período de tempo fundamental para realizar suas estratégias militares. Isso tornou a posição genupeitoral conhecida como “a posição que Napoleão perdeu a guerra”. Outros historiadores afirmam, no entanto, que foram as chuvas que impossibilitaram o melhor posicionamento de seus pesados canhões, provocando sua derrota para o Duque de Wellington, da Inglaterra. É bem provável que os dois fatos tenham contribuído para a sua derrota.


Figura 106: Pintura da batalha de Waterloo


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Outra história interessante é sobre a “genética moderna“ que vieram a público em duas conferências feitas na Academia de Ciências de Brünn ou Brno, cidade do antigo Império Austro-Húngaro (hoje na Repúbica Tcheca), por um obscuro monge agostiniano Gregor “Mendel” (1.822 a 1.884) (fig. 107).


Figura 107: Retrato do monge Gregor “Mendel” (1.822 a 1.884)

O teor de suas conferências, proferidas em 8 de fevereiro e 8 de março de 1.865, foi publicado em 1.866 (com data do ano anterior) nos Anais daquela Academia, sob forma de um trabalho científico intitulado “Experimento em hibridação de plantas“. Cruzando ervilhas na horta do mosteiro aonde morava no Império Austríaco, durante uma década, aprendeu a prever as características dos híbridos. Sabendo que fizera uma descoberta científica (a das leis básicas da hereditariedade), apresentou-a em Brünn, além de publicá-la.

Estória:

Mendel sempre se interessou pela biologia, porém, não conseguiu passar no exame para tornar-se professor de biologia, seu maior objetivo. Mesmo assim, foi o descobridor um princípio básico dessa matéria e precursor da genética moderna.

Ele desistiu de suas pesquisas dois anos depois, quando se tornou abade. Morreu no dia 06 de janeiro de 1884 de uma doença renal crônica e foi enterrado no próprio mosteiro. Ele, um homem à frente de seu tempo, foi ignorado durante toda a sua vida.

Somente dezesseis anos depois de sua morte, em março de 1.900, os estudos de Mendel chegaram ao conhecimento da comunidade científica mundial pelos trabalhos de três pesquisadores que, independentemente, chegaram às mesmas conclusões. Foram eles o holandês Hugo de Vries (1848-1935), o austríaco Erick von Tschermark-Seysenegg (1871-1962) e o inglês William Bateson (1861-1926). Mendel foi então reconhecido como o descobridor dos fundamentos da genética e, com isso, revolucionado a biologia. Foram estes estudos as bases da genética e da biologia molecular atual, culminando com a carcinogênese. Teve grande importância, em especial, para a carcinogênese colorretal, conhecida nos dias atuais, como um processo de múltiplas etapas, aonde o dano genético é cumulativo e sendo expresso em fenótipos de progressiva malignidade.

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Nesse período, as especialidades cirúrgicas, também tiveram grande avanço, incluindo a coloproctológica, pela utilização da anestesia, da assepsia, da antissepsia e de vários novos instrumentais. As operações eram realizadas por brilhantes cirurgiões e este período, o século XIX, ficou conhecido como “o século dos cirurgiões”

Até o século XIX, aproximadamente 60% dos pacientes submetidos às cirurgias nos intestinos, morriam de infecção, tornando as operações coloproctológicas proibitivas. Dois conceitos foram fundamentais para a viabilização dessas cirurgias, o da “assepsia e o da antissepsia“.

O mérito de ter a intuição do problema da “infecção por contato” foi de um médico teuto-húngaro, nascido em Ofën (Hungria), Igác Fülop “Semmelweis” (1.818-1.865) (fig. 108).


Figura 108: Retrato do médico Igác Fülop “Semmelweis” (1.818-1.865)

Estória:

Semmelweis era estudante de direito em Viena quando conheceu os trabalhos do anátomo-patologista “Karl von Rokitansky“ indo inclusive, visita-lo onde ele trabalhava, realizando suas autópsias. Rokitansky o impressionou a ponto de induzi-lo, contra a vontade de seu pai, a trocar a jurisprudência pela medicina, já no ano seguinte.

Formou-se médico em Viena (1.844) e pretendia ser patologista. Candidatou-se a uma vaga como assistente na clínica do “professor Skoda“, porém foi preterido por outro médico mais velho. “Semmelweis“, aos 28 anos de idade, necessitando urgente de trabalho, começou sua busca para clinicar em qualquer outra área médica, para poder sustentar sua família. Acabou contratado, em fevereiro de 1.846, para clinicar no Hospital Geral de Viena, como responsável da Primeira Clínica Obstétrica.

Foi nessa clínica de obstetrícia, vendo a alta incidência de óbitos de parturientes pela “febre puerperal“ que ele se interessou por diminuir esse sofrimento às gestantes. Ele imaginou que a causa freqüente dessas mortes poderia ser pela contaminação das parturientes através da próprias mãos dos médicos da enfermaria que as examinavam fazendo os toques vaginais.

Estória:

Semmelweis, quando assumiu a enfermaria de obstetrícia do Hospital Geral de Viena, notou que as parturientes esperavam, sempre que possível, internar na enfermaria ao lado da dele, que era comandada pelas freiras parteiras, preferindo até mesmo dar à luz na rua. As gestantes “sabiam“ que na enfermaria das freiras morriam bem menos parturientes que na dele. Por isso, ele contabilizou as mortes nas duas enfermarias e confirmou que, realmente, morriam menos gestantes na enfermaria da freiras parteiras (na dele a mortalidade atingia mais de 12% e na das freiras parteiras 0,9%). Imaginou que isto poderia ser devido à maior limpeza na enfermaria delas e passou a imaginar como mudar a situação.

Sua enfermaria servia para a prática obstétrica dos estudantes de medicina da Universidade de Viena, e “Semmelweis” notou que eles faziam o toque vaginal nas parturientes, sem lavar suas mãos, fato comum e generalizado na medicina até então. Notou também, que eles tocavam as parturientes sem lavas suas mãos, mesmo após terem realizado autópsias naquelas que haviam morrido com a “febre puerperal“. Desta forma, julgou Semmelweis, que eles podiriam estar disseminando a doença para as demais gestantes, através de suas mãos. E essa contaminação seria a responsável pelas altas taxas de “febre puerperal“ e a maior mortalidade na sua enfermaria. Assim, a partir do dia 15 de maio de 1.847, ele orientou a todos os que fossem examinar as gestantes, deveriam antes lavar as mãos, nas bacias colocadas ao lado das camas das gestantes, na enfermaria (fig. 109).


Figura 109: Pintura retratando as bacias colocadas na enfermaria de Semmelweis, ao lado das camas das parturientes

Por isso, ele foi o primeiro a reconhecer o caráter infeccioso e transmissível da febre puerperal, preconizando para sua prevenção, a lavagem das mãos e dos instrumentos para todos os procedimentos obstétricos. Estes simples cuidados fizeram com que as taxas de mortalidade caíssem muito, de mais de 12% para 1,33%, confirmando suas observações.

Seus estudos e deduções foram publicados com o nome de “Da Etiologia e Profilaxia da Febre Puerperal”, em 1.861.

Por ocasião da lutas separatistas entre a Aústria e a Hungria, Semmelweis, por ser de origem húngara, foi despedido, voltando a Budapeste. Após sua saída, a lavagem das mãos foram abolidas no setor de obstetrícia, com a volta das altas taxas de mortalidade.

Estória:

Por isso, Semmelweis desgostoso e desesperado pela certeza da importância da “infecção por contato“, já em Budapeste (Hungria) em 1.864, passou a apresentar períodos de insanidade, necessitando de internações e cuidados especiais. Morreu, no dia 14 de agosto de 1.865, com 47 anos, delirando em febre, devido a infecção generalizada, após ferir-se no dedo, numa de suas autópsias. Segundo alguns historiadores esse seu ato foi proposital. E, ironicamente, o primeiro homem que desvendou o segredo da assepsia, base do futuro da cirurgia, morreu de septicemia!

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Desde a antigüidade acreditava-se que as doenças vinham dos maus espíritos e a conexão entre micróbios e doenças infecciosas permaneceu um mistério até a metade do século XIX, quando várias experiências comprovaram que eles podiam multiplicar-se dentro do organismo humano.

Coube a Joseph Jackson “Lister” (1.827-1.912) (fig. 110), professor de cirurgia da Universidade de Glasglow, pesquisar diversas maneiras de impedir a infecção cirúrgica, descobrindo quais eram os antissépticos adequados e criar os primeiros métodos de antissepsia e assepsia cirúrgicas.


Figura 110: Joseph Jackson “Lister” (1.827-1.912)

Em 1.864 ele testou o ácido fênico (fenol) para a lavagem das mãos de toda a equipe cirúrgica, para a limpeza dos abscessos, dos ferimentos e das fraturas expostas. Em 1.865 também utilizou o fenol para a lavagem dos materiais cirúrgicos, além da imbebição dos fios de sutura e em 1.866 usou-o para a pulverização do campo cirúrgico e das salas de cirurgia (fig. 111).


Figura 111: Em A, pulverização do campo cirúrgico e da sala de cirurgia com fenol e em B, o pulverizador idealizado por Lister

Em 1.867, ele publicou na renomada revista “The Lancet” sua experiência com antissepsia microbiana com a vaporização de fenol e sua importância para combater as infecções. “Lister” achava que havia gérmens nocivos no ar, causando a supuração das feridas operatórias. Com a antissepsia e assepsia a mortalidade dos pacientes operados caiu de 60% para 15%. Estes fatos revolucionaram os conceitos básicos da cirurgia. Na Áustria, o ilustre cirurgião “Theodor Billroth“ adota o “Listerismo” nas suas operações dando provas da sua eficácia.

Em 1.887, com a morte de “Sir William Fergusson“, cirurgião-chefe da Real Universidade de Londres, Lister assume seu lugar e em 1º de outubro pronunciou a sua aula inaugural.

Em 1.864, o mais brilhante químico francês, Louis “Pasteur” (1.822-1.895) (fig. 112) também concluiu que havia microrganismos no ar, dando suporte para os conceitos da assepsia e antissepsia de Lister. Foi ele quem descobriu que o calor matava os microrganismos que azedavam o leite e o vinho, e logo a técnica criada por ele, a “pasteurização”, seria aplicada na conserva de alimentos e bebidas. Em 30 de abril de 1.878 ele anunciou sua "Teoria dos Germes", trabalho de enorme repercussão para a medicina moderna. Estudou o antraz e a raiva, produzindo as vacinas anti-antraz e anti-raiva.


Figura 112: Retrato do químico Louis “Pasteur”

Porém, foi o médico alemão, Robert “Koch” (1.843-1.910) (fig. 113) que, em 1.876, identificou um “bacilo específico“ como causador de uma “doença específica“. Esse médico rural da cidadezinha alemã de Wollstein, totalmente desconhecido, viria a provar pela primeria vez as hipóteses de Pasteur, a existência de germes vivos no ar, bem como, os métodos de antissepsia de Lister.


Figura 113: Retrato do médico alemão, Robert “Koch”

Estória:

“Koch“, ganhou de presente de aniversário de 28 anos, um microscópio de sua esposa, Emmy, para ele se distrair. Embora distante dos grandes centros médicos e dos grandes laboratórios, ele começou suas pesquisas, com resultados extraordinários!

Seu trabalho com antraz e a cólera, na região rural da Alemanha, chamou a atenção do professor Kohn, da Universidade de Breslau. Kohn então convidou “Koch“ a reproduzir seus achados nos laboratórios em Breslau e lá, todos se confirmaram.

Levado para o Instituto Imperial de Saúde de Berlim, começou sua maior pesquisa: seu relatório de 1.882, sobre a descoberta do micróbio da tuberculose, provou a natureza infecciosa da moléstia estabelecendo a teoria microbiana da doença, com implicações imediatas no seu diagnóstico e tratamento.

Juntamente com os conhecimentos de “Pasteur”, ele abriu caminho para a microbiologia, imunologia, saneamento e higiene com extraordinário alcance para aumentar a expectativa de vida dos seres humanos.

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Até então, a duração de uma cirurgia era fundamental, uma vez que não havia anestesia, mas somente a sedação do paciente (com ópio, uísque, coca, etc.), e a rapidez era a característica mais importante dos grandes cirurgiões.

A anestesia geral por inalação foi criada na década de 1.840, usando-se o óxido nitroso ou “gás hilariante“ (éter). Ele foi sintetizado em 1.772, por “Joseph Priestley“ (1.733-1.804) (fig. 114).


Figura 114: Retrato de Joseph Priestly

Foi um dentista, William Thomas Green “Morton” (1.819-1.868) (fig. 115), que introduziu a anestesia geral com óxido nitroso (éter), nas intervenções cirúrgicas.


Figura 115: Retrato do dentista William Thomas Green Morton

Ele utilizou a anestesia por inalação de éter (fig. 116) na cirurgia para extração de um tumor da glândula sub-maxilar e parte da língua no jovem Gilbert Abbot. Ela foi realizada pelo cirurgião John Collins “Warren”, em 16 de outubro de 1.846, no Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, nos Estados Unidos em cena imortalizada numa pintura (fig. 117).


Figura 116: Inalador de éter utilizado por Morton e


Figura 117: Pintura da primeira operação com o paciente completamente anestesiado

“Morton” não descobriu o éter, tampouco foi o primeiro a usá-lo em procedimento cirúrgico. Já no ano de 1.800, o químico inglês Humphry Davy se livrou duma dor de dente, aspirando o ácido nitroso. Na cidade rural de Jefferson, Georgia, em 1.842, o médico Crawford W. “Long” (fig. 118) extraiu o tumor de um paciente usando um inalador de éter igual ao utilizado por Morton e cobrando pela cirurgia sem dor, dois dólares.


Figura 118: Retrato do médico Crawford W. Long

Morton, também não foi o primeiro a utilizar a inalação do éter numa cirurgia no Hospital Geral de Massachusetts. Em 10 de dezembro de 1.844, foi o cirurgião-dentista, “Horace Wells“ (1.815-1.848) (fig. 116), de Hartford, foi o primerio a fazê-lo e a cirurgia realizada pelo mesmo cirurgião John Collins “Warren”.


Figura 115: Pintura retratando Horace Wells

Wells utilizou a anestesia, pela inalação de éter, para a extreção de dois dentes de um paciente seu. A extração do primerio dente do paciente, por Warren, foi absolutamente indolor, porém ao tentar retirar o segundo dente, o paciente deu um enorme grito de dor e se não estivesse amarrado na cadeira, teria saído correndo. O cirurgião “Warren“ definiu o fato como mais uma panaceia e “Wells“ foi ironizado e até mesmo, escarniado por todos os presentes na sala de cirurgia.

Estória:

O malogro dessa primeria demonstração da narcose cirúrgica ocorreu porque, por um descuido ou mesmo desconhecimento, “Horace Wells“ desligou precocemente o aparelho de inalação do éter do paciente, causando sua dor e retardando em dois anos o início da anestesia inalatória.

Coube a “Morton” sua notificação à comunidade científica, com o relato da cirurgia feita por Warren e publicada no Boston Medical and Surgical Journal. Por isso, ele é lembrado como o pioneiro dessa nova era para os cirurgiões e, especialmente, para os pacientes de todo o mundo.

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Também nos Estados Unidos, William Stewart “Halsted“ (1852-1922) (fig. 120), nasceu na cidade de Nova York, de família proeminente. Formou-se médico na Universidade de Yale em 1.874, como primeiro em sua classe.


Figura 120: Pintura retratando William Stewart Halsted

Foi o mais famoso cirurgião nova iorquino de sua época, operando inicialmente no Belleveue Hospital e depois no New York Hospital. Em 1.878, viajou para a Europa para estudar com os importantes cirurgiões que lá trabalhavam. Voltou no outono de 1.880, tranzendo para os Estados Unidos várias técnicas cirúrgicas, entre as quais, as da assepsia e antissepsia aprendidas com “Lister“. Em 1.887 mudou-se para Baltimore, tornando-se cirurgião-chefe do John Hopkins Hospital, em 1.899. Lá tornou-se um eminente pesquisador, propondo várias técnicas para as correções de hérnias inguinais, vários instrumentos hemostáticos, luva cirúrgica de borracha e técnicas de sutura para anastomoses intestinais, comparando os fios de seda como o catgut. É considerado o pai da cirurgia americana.

Em 1.890 propôs o uso de uma luva de algodão para a proteção das mãos de toda a equipe cirúrgica e em 1.894 o uso de luvas de borracha (fig. 121). Era para evitar a contaminação das cirurgias pelas mãos dos próprios cirurgiões. Essas luvas idealizadas por Halsted eram bem diferentes das luvas de borracha de material grosseiro, pouco maleável, ocasionalmente, utilizadas pelos anatomistas em suas necrópcias.


Figura 121: Luva cirúrgica de borracha idealizada por Halsted

Estória:

Halsted tinha paixão pela enfermeira que instrumentava suas cirurgias, a senhorita Carolina Hampton, com quem se casou em 4 de junho de 1.890. Quando a técnica da antissepsia de Lister chegou a Nova York, todos os que participavam do ato operatório, passaram a lavar as mãos com fenol. Porém, sua instrumentadora desenvolveu alergia tópica ao fenol e para que ele pudesse continuar a usufruir de sua compania nas cirurgias, Halsted confeccionou essa luva, ou seja, era incialmente, para a proteção das mãos de sua amada. Ele pediu ao seu amigo pessoal, Charles Goodyear, o inventor da vulcanização da borracha, para desenvolver as luvas cirúrgicas de borracha, muito finas e até hoje utilizadas.


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Foi nessa época, na França, que Antonin J. “Desormeaux” criou o primeiro retossigmoidoscópio de tubo metálico com iluminação própria para examinar o “intestino terminal”, em 1.865 (fig. 122), devendo-se a Kelly e Baltimore os avanços na sua utilização na propedêutica de rotina e no seu desenvolvimento.


Figura 122: Em A, o retossigmoidoscópio desenvolvido por Desormeaux, retratado em B

Joahnn Freiheer von “Mikulicz-Radecki“ (1850-1905) (fig. 123), nasceu na cidade de Cernowicz, na península Balcã, na época pertencente ao Império Austro-Húngaro. Formou-se médico em Viena em 1.875 e tornou-se assistente do importante cirurgião Theodor Billroth. Com 32 anos assumiu a cátedra cirúrgica da cidade de Cracóvia, na Polonia. Com 40 anos mudou-se para Breslau, também como catedrático e lá ficou até sua morte. Foi o inventor várias técnicas e instrumentos cirúrgicos, além de aperfeiçoar o gastroscópio rígido (fig. 124), hoje, videoesofagogastroduodenoscopio.


Figura 123: Retrato do cirurgião Mikulicz-Radecki (1850-1905)


Figura 124: Pintura retratando o uso de seu gastroscópio rígido

Estes aparelhos estimularam o interesse na industrialização de novos endoscópios, chegando-se ao colonoscópio flexível de fibra óptica, em 1.963 e culminando nos modernos videocolonoscópios com magnificação de imagens, cromoscopia digital e a ecocolonoscopia.


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Contribuiu também, para o diagnóstico das doenças colorretais, o desenvolvimento da radiologia. Como tantas outras descobertas científicas, a do raio “X” foi acidental. Ela ocorreu quando o físico alemão, Wilhelm Konrad “Röentgen” (fig. 125), investigava as propriedades da eletricidade. Em 8 de dezembro de 1.895, ele descobriu mais do que queria.


Figura 125: Retrato do físico alemão, Wilhelm Konrad “Röentgen”

Estória:

Em 1.862, esse prussiano de dezessete anos e um simples estudante ginasial, foi pressionado pelo diretor de sua escola, para revelar a identidade de um colega acusado de desenhar um retrato zombeteiro de um dos seus professores. Ele se recusou a fazê-lo e por isso foi expulso por insubordinação e não pode mais ser admitido em nenhum outro ginásio, alemão ou holandês. Assim, ele jamais recebeu o diploma ginasial e consequentemente, nunca pode se matricular numa universidade. Acabou matriculando-se na Escola Politécnica de Zurique, em 1.865, que não exigia o diploma do ginásio. Ali estudou por três anos engenharia mecânica e nenhuma matéria de física. Por sua extraordinária capacidade de projetar e construir instrumentos, acabou chamando a atenção do “Dr. August Kundt“, um dos mais famosos fisícos teóricos da Europa. Ele convenceu o jovem Roentgen a ser seu assistente na Universidade de Zurique. Quando o professor Kundt, em 1.872, mudou-se para a Universidade de Estrasburgo, na época uma cidade da Alemanha, hoje francesa, ele o acompanhou. Lá finalmente, ele superou a barreira do diploma ginasial e foi promovido a professor assistente, em 1.876. Após três anos, separou-se de Kundt, e aceitou a cátedra na Universidade de Giessen.

Na noite de 8 de novembro de 1.895, ele colocou um tubo de vácuo dentro de uma caixa preta, com um fio preso em ambas as extremidades, apagou as luzes do laboratório e ligou a corrente. Uma fluorescência misteriosa surgiu na folha de papelão tratada com bário que estava ali perto. “Röentgen” notou que o papelão brilhava em reação a alguma coisa que emanava do tubo. Não se tratava de raios catódicos ou de outra emissão que se conhecia. Com mais experiências, descobriu que aqueles raios desconhecidos, chamados por ele de raios “X”, penetravam em livros grossos, blocos de madeira e no corpo humano. Ao contrário de um raio luminoso que pode ser visto, ou de uma onda de calor que pode ser sentida, ou de uma onda de som que se pode ouvir, a nova onda, o raio X, não podia ser percebida por nenhum dos sentidos humanos.

Ele fez a primeira radiografia utilizando como modelo a mão de sua esposa, Bertha, aonde pode ser visto a sombra de seus ossos e o anel no seu dedo (fig. 126). A única demonstração pública feita pelo descobridor dos raios “X”, foi a da mão do anatomista Rudolph von Kölliker.


Figura 126: Primeira radiografia, a da mão de sua esposa, aonde se vê os ossos e o seu anel

A divulgação de sua descoberta, dois meses depois, causou sensação. Os médicos passaram a empregar a nova tecnologia para enxergar ossos quebrados e balas no interior dos corpos de soldados feridos.

Estória:

A possibilidade do uso generalizado do “raio X“ descoberto por Roentgen, causou pânico na população leiga, temerosa que qualquer pessoa, com “óculos de raio X“, poderia enxergar as outras, completamente desnudas. Até mesmo, foram “inventadas“ roupas especiais que protegeriam as senhoras da época, de tal vexame.

Em 1.901, Roentgen foi o primeiro cientista a receber um Premio Nobel de Física. Esta descoberta permitiu o desenvolvimento de novas técnicas de imagens, como a tomografia computadorizada e a ressonância magnética, abrindo um visor para a estrutura da matéria e o funcionamento do corpo humano, entre elas a colonoscopia virtual.

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Nos Estados Unidos um proeminente cirurgião, John Benjamin “Murphy” (1.857-1.916) (fig. 127), nascido em Appleton, Wisconsin e formado em 1.879 no Rush Medical College, e com especialização em Berlim, Heidelberg e Viena aonde operou por 18 meses com “Theodor Billroth“. Na volta foi aceito professor de cirurgia da Northwestern University Medical School, em Chicago.


Figura 127: Retrato do cirurgião John Benjamin “Murphy”

Além da publicação de vários trabalhos, tais como, “Year Book of General Surgery (1.901), ele espantou o mundo ao utilizar um aparelho mecânico, os “botões de Murphy” (fig. 128), que permitia a anastomose dos intestinos, sem a necessidade de sutura, dando inicio à era das anastomoses mecânicas, hoje largamente realizadas com modernos aparelhos descartáveis com enorme aplicação na coloproctologia.


Figura 128: Desenho dos “botões de Murphy” para anastomose dos intestinos, sem a necessidade de sutura

Até então, a “doença do lado direto do abdome“ era conhecida na Europa como peritiflite (inflamação no ceco). Essa inflamação era antiquíssima e já havia matado milhares de indivíduos, porque provocava invariavelmente, a ruptura do ceco na cavidade abdominal, ocasionando uma inflamação mortal no peritônio. Nos Estados Unidos, entretanto, esse termo já havia sido substituído por “apendicite“, pelo conhecimento que, na realidade, não era no ceco o local original da inflamação e sim o apêndice vermicular, anatomicamente, nele inserido.

As cirurgias para o tratamento da apendicite aguda passam a ser realizadas, na Europa e nos Estados Unidos. Coube a “Murphy“, aos 32 anos de idade, realizar em Chicago a primeira cirurgia precoce do apêndice.

Estória:

Após a morte da Rainha Vitória, da Inglaterra, em 22 de janeiro de 1901, seu filho Eduardo VII, preparava-se para a sua coroação e Londres estava em festa. No dia 23 de junho, Sua Majestade fica gravemente enfermo, acometido de peritiflite (como era conhecida, naquela época, a apendicite na Europa) e teria que submeter-se a uma arriscada operação.

O cirurgião chamado é “Sir Frederick Treves“ (1.853-1.923) (fig. 130), o melhor de sua época na Inglaterra, para operações desse gênero, pois havia realizado, há mais de 15 anos, sua primeira operação de peritiflite, em 29 de junho de 1.886, no Hospital de Londres. Assim, sua majestade, o Rei Eduardo VII, na segunda-feira, 23 de junho de 1901, é operado por Treves. Ele iniciou a cirurgia às 12:30h, auxiliado por Charles Laking, com duração de, aproximadamente, quarenta minutos. Nela foram usados todos os conhecimentos de assepsia e antissepsia e após uma semana, sua majestade, completamente recuperada reinicia os preparativos de sua coroação.


Figura 130: Retrato do cirurgião Sir Frederick Treves

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Foi em 1.869, antes mesmo da existência do desenho do DNA, que o médico suíço “Joahnnes Friedrich Miescher“ (1.844-1.895) (fig. 131) confirmou a presença do ácido desoxirribonucleico no núcleo de todas as células vivas. Porém para a ciência, até 1.952, quem controlava a hereditariedade era a proteína e não o DNA. Nessa data “Martha Chase“ e “Alfred Hershey“ provaram o contrário, iniciando a corrida para descobrir como funcionava essa molécula especialíssima e para saber o que nos faz como somos.


Figura 131: Em A, o retrato do médico Joahnnes Friedrich Miescher e em, B sua descoberta, o ácido desoxirribonucleico

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Na Inglaterra, um cirurgião proctológico, Frederick “Salmon” (1.796 a 1.868) (fig. 132), nascido em Bath, Inglaterra, depois de estudar no “St. Bartholomew’s Hospital” e publicar seus primeiros livros sobre a especialidade, fundou em Londres, no ano de 1.835, a primeira instituição hospitalar, especializada somente em doenças anorretais com o nome de “The Infirmary for the Relief of the Poor, Afflictet with Fistula and Other Diseases of the Rectum“. Em 25 de abril de 1.854 o hospital foi renomeado de “St. Mark’s Hospital” (fig. 133). “Salmon” aí trabalhou, até 1.859, tendo realizado mais de 3.500 operações proctológicas. Ele foi um eminente membro do Royal College of Surgeons, desde 1818.


Figura 132: Retrato do cirurgião londrino, Frederick “Salmon” e


Figura 133: Primeiro edifício do Hospital São Marcos em Londres e a placa existente no local em homenagem a seu fundador, o cirurgião “Salmon“

No Hospital São Marcos trabalharam grandes nomes da coloproctologia moderna, entre os quais: Goodsall, Gabriel, Lockharty-Mummery, Lloyd-Davis, Dukes, Milligan, Morgan, Morson, Goligher, Parks e Toddt. Lá estagiaram também, importantes coloproctologistas de todo o mundo.

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Em 1.859 a Retocolite Ulcerativa (RCU) foi descrita como entidade nosológica por Samuel “Wilks“ (fig. 134), trabalhando no Hospital Guy de Londres, pelo relato da necrópsia de um caso da enfermidade e que, posteriormente, ele encaminhou sua descrição, por carta, ao Medical Times and Gazette. A relativa demora na descoberta da enfermidade Retocolite Ulcerativa deveu-se ao fato que, até então, todo quadro diarreico era tido como de origem infecciosa.


Figura 134: Samuel Wilks responsável pelo primeiro caso de retocolite ulcerativa

Deve-se também, a Wilks, auxiliado por Moxon, em 1.875, a definição da Retocolite ulcerativa como entidade patológica específica, denominada por eles de “inflamação de intestino grosso ou colite idiopática”. Em seguida, caracterizaram-na, distinguindo-a de outras doenças inflamatórias intestinais (disentéricas) já bem conhecidas no século XIX, passando a divulga-la em aulas e livro. Sua terapêutica cirúrgica somente surge no final do século XIX, com a realização de uma colostomia numa mulher portadora de RCU para irrigação do cólon inflamado, por “Mayo-Robson“ de Leeds, em 1.893.

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A Jean “Cruveilhier“ (fig. 130), médico francês, é creditada a primeira descrição da “Doença Diverticular dos Cólons“. No entanto, há relatos dos divertículos colônicos desde a antiguidade. As descrições mais precisas ocorreram em 1.732, por Litré, seguido por Morgagni em 1.756. Seu quadro clínico foi relatado por Maximiliano Stoll em 1.789, como a presença de bolsas diverticulares na parede do cólon associadas à cólicas abdominais e à eliminação de fecalitos na defecação. Foi “Cruveilhier“ o primeiro a demonstrar, em 1.849, que a incidência dos divertículos era maior em pessoas idosas.


Figura 135: Retrato do médico francês, Jean “Cruveilhier“

A coloproctologia até a metade do século XX

A enfermidade agora denominada de doença de Crohn não é uma afecção nova. “Soranus de Éfesus“ (170 d.C.) descreveu em seu livro uma afecção muito semelhante à doença de Crohn. No entanto, ela demorou um longo tempo, até o século XX, para tornar-se uma enfermidade clínica reconhecida.

Já em 1.813, “Charles Combe“ e “William Saunders“ publicaram na revista “Medical Transactions” do Real Colégio Médico de Londres, o caso ilustrado de um paciente portador de estenose de íleo com intenso processo inflamatório (fig. 136).


Figura 136: Combe e Saunders publicaram na revista “Medical Transactions” a descrição da doença de Crohn ileal

Em 1.882, “N. Moore“ foi um dos primeiros a descrever e publicar no “Transactions of the Pathological Society of London”, os achados microscópicos e macroscópicos da doença de Crohn em um paciente com obstrução intestinal e presença de intenso processo inflamatório infiltrativo crônico celular. Porém, para o seu reconhecimento definitivo como enfermidade clínica, foram relevantes três publicações:

- A primeira de Thomas Kennedy Dalziel (1.861-1.924), nascido em Merkland, Escócia. Esse cirurgião trabalhando em Edimburgo, publicou em 1.913, no “British Medical Journal” (fig. 137) o relato da enfermidade. Infelizmente, ele teve pouca repercussão em sua época. Nela, ele fazia um retrospecto de noves pacientes por ele operados no hospital de Edimburgo, com dois óbitos, da doença envolvendo o jejuno e íleo, bem como o cólon transverso e o sigmóide. Ele a diferenciou da tuberculose intestinal e comentou que seu prognóstico era ruim, a menos que, fosse precocemente localizada e operada. Suas avaliações foram interrompidas pela Primeira Guerra Mundial quando ele se retirou para sua fazenda, no interior da Escócia;


Figura 132: Kennedy Dalziel, publicou em 1.913 no “British Medical Journal”, de seus 9 pacientes com a doença de Crohn

- A segunda por “Eli Moschcowitz“ e “A. O. Wilensky‘ dos hospitais israelitas Monte Sinai (de Nova York) e Beth (de Boston), em 1.923, no “American Journal of Medical Sciences” que também não teve grande repercussão. Nessa publicação eles relataram, numa peça cirúrgica ileocecal, a presença de uma inflamação inespecífica granulomatosa com a presença de células gigantes, diferenciando-a da apendicite hiperplásica e notando a ausência de bactérias e caseificação;

- Finalmente a publicação de Crohn, Ginzburg e Oppenheimer, também do Hospital Monte Sinai de Nova York, em 1932 (fig. 138).


Figura 138: Em A, a publicação na revista JAMA de 1932, dos médicos Crohn, Ginzburg e Oppenheimer, sobre a doença de Crohn, e em B, seus autores retratados num congresso médico

Essa publicação marcou a história desta afecção com grande repercussão mundial:

“Crohn BB, Ginzburg L e Oppenheimer GD. Regional ileitis: a pathologic and clinical entity. JAMA, 99:1223-1229, 1932. “

Esse trabalho foi resultado da colaboração de alguns eminentes médicos da época:

- Dr. Burrill Bernard Crohn: gastroenterologista clínico e responsável pelo diagnóstico, indicação cirúrgica e acompanhamento dos 14 casos, todos com ileite terminal, avaliados neste trabalho e de cuja clínica privada vieram os pacientes para serem operados no Hospital Monte Sinai de Nova York;

- Dr. Alexander A. Berg, chefe da cirurgia do Hospital Monte Sinai e responsável pelas 14 cirurgias bem sucedidas;

- Dr. Leon Ginzburg, assistente de Berg, e responsável pela avaliação patológica dos 14 espécimes cirúrgicos ileocecais e

- Dr. Gordon D. Oppenheimer, patologista e, como Ginzburg, interessado em doenças inflamatórias intestinais, em especial, as granulomatosas e responsável pelos estudos histopatológicos do trabalho.

Estória:

Foi o cirurgião Berg quem insistiu na união e colaboração dos três autores, ele mesmo recusando um lugar como autor, por alegar tratar-se de um “estudo clínico“ (segundo confirmação do próprio Crohn) e foi também quem sugeriu que a ordem dos autores deveria ser alfabética. Assim, em 11 de dezembro de 1.931, Crohn escreveu à Associação Americana de Gastroenterologia (AGA) informando que tinha uma contribuição científica para apresentar como “tema livre“ na reunião de Maio de 1.932, pois supunha ter descoberto uma nova enfermidade intestinal por eles denominada “ileíte terminal”. Esta apresentação aconteceu em 2 de maio de 1.932 na cidade de Atlanta e foi seguida da sua publicação, também em 1.932, nos Anais da AGA (Transactions of the AGA - Annals) e na revista JAMA. O nome de “doença de Crohn” deveu-se à insistência de várias publicações, principalmente européias, de citá-la com essa denominação, entre as quais, o editorial da revista Lancet, escrita pelo seu amigo londrino, o cirurgião Brian Brooke.

No Brasil, coube ao cirurgião “Berardinelli“, em 1.943, publicar o primeiro caso de ileite regional, 11 anos após a publicação do artigo de Crohn, Oppenheiner e Ginszburg.

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Durante 3.000 anos, usaram-se bolores para combater as infecções. Seus efeitos, porém, eram imprevisíveis, às vezes tóxicos. Isso até o século passado, quando em setembro de 1.928, o médico pesquisador da Universidade de Londres (onde havia ser formado), escocês de nascimento, Alexander “Fleming” (1.881-1.955) observou ao microscópio o crescimento de uma pequena quantidade de “mofo ou bolor“ que havia contaminado a placa de vidro com uma cultura de staphylococcus aureus (estafilococos), causadora de graves infecções no organismo (fig. 139).


Figura 139: Retrato do médico escocês, Alexander “Fleming” e a placa de vidro com o crescimento de “mofo“ que contaminou a cultura da bactéria staphylococcus aureus

Fleming nasceu em Lochfield, Escócia, e foi criado numa propriedade rural aonde seu pai era jardineiro. Frequentou as excelentes escolas escocesas, para os nobres da época, e estudou medicina na Universidade de Londres, sempre com uma “bolsa de estudos“. Formou-se em 1.906 e escolheu para trabalhar o Hospital Saint Mary, como pesquisador.

Fleming, ao voltar para seu laboratório após suas férias, em setembro de 1.928, notou que nas placas de vidro aonde havia a cultura de staphylococcus aureus, um fungo, o penicillium notatum, havia destruido as bactérias, formando um círculo em sua volta. Curioso, resolveu investigar o que havia ocorrido e a recompensa chegou rápido. Identificou e isolou as substâncias produzidas por esse fungo que eliminavam as bactérias causadoras de infecções. Ele relatou seu achado num artigo, em 1.929. Mais tarde, ele deu ao extrato do fungo penicillinium, o nome de penicilina. Por sua descoberta, Fleming, recebeu o Prêmio Nobel de Medicina (1.945).

Estória:

Winston Churchill, o grande líder dos aliados na II Guerra Mundial, era apenas um menino quando nadava no lago da propriedade onde ficava o castelo de seu pai, Lord Churchill. Nele, foi salvo de afogamento por outro garoto, filho de um jardineiro do castelo. Agradecido, o pai de Winston quis recompensar seu empregado pelo ato heróico do filho. O jardineiro pediu apenas que ele propriciasse ao seu filho a mesma educação que fosse dar ao seu próprio filho, Winston, fato que foi cumprido rigorosamente. O nome desse menino era “Alexander Fleming“.

É intrigante que Fleming tenha pensado na penicilina apenas como um germicida externo, para ser aplicado na superfície de uma ferida infeccionada. Ele nunca considerou a possibilidade da droga poder ser injetada como quimioterápica para combater as infecções bacterianas sistêmicas.

Foi depois que outros cientistas refinaram esse potente antibiótico que os grandes laboratórios farmacêuticos iniciaram sua produção industrial em larga escala. A “penicilina“, a partir de 1.939, passa a ser o primeiro antibiótico utilizado em medicina, injetado diretamente nas veias dos pacientes. Salvou, entre tantos, multidões de pacientes sifilíticos, que era até então, uma doença incurável. A penicilina teve imenso impacto no tratamento das infecções bacterianas, tais como a pneumonia e a tuberculose, também consideradas doenças mortais.

A descoberta casual de “Fleming” revolucionou o tratamento de doenças infecciosas e representou extraordinária ação no combate às infecções cirúrgicas, além de iniciar uma nova era, a da “profilaxia para as cirurgias“ em geral, e as coloproctológicas em especial.

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O “St. Mark’s Hospital”, fundado no ano de 1.835 por Frederick “Salmon”, tornou-se referência mundial na coloproctologia. Lá trabalharam eminentes médicos da especialidade, dos quais, relataremos alguns dos principais:

- Em 1.922, começou a trabalhar como patologista no St. Mark’s Hospital, “Curthbert Esquire Dukes“ (1.890-1.977) (fig. 140), nascido em Bridgwater, Inglaterra. Formou-se médico em 1.914 na Universidade de Edinburgh e serviu como médico a Armada Real na I Guerra Mundial.


Figura 140: Foto do patologista inglês, C E. Dukes

Foi no “St. Mark’s Hospital“ que idealizou a classificação para o câncer retal como guia de prognóstico, de grande importância e repercussão, e que recebeu o seu nome (fig. 141).


Figura 141: Classificação para o câncer retal relatada no livro de Dukes

Foi pioneiro, também na publicação de trabalhos com polipose familiar. Em 1.944 foi eleito presidente da Royal Society of Medicine.

- “William Bashall Gabriel“ (1.893-1.975) (fig. 140), nasceu em Oulton Broad, Inglaterra. Formou-se médico na Freer Lucas School e serviu na II Guerra Mundial num destróier no Mediterrâneo.

Figura 142: Foto do cirurgião W. B. Gabriel

Em 1.919 foi trabalhar como cirurgião no St. Mark’s Hospital. Operou mais de 1.000 pacientes com câncer de reto baixo, pela técnica de Miles, e suas estatísticas da sobrevivência de seus pacientes deu-lhe destaque internacional, além das suas várias técnicas para cirurgias retais. Publicou tudo no maior livro sobre coloproctologia de sua época, com 5 reedições, Principles and Practice of Rectal Surgery.

- Outro cirurgião que foi trabalhar, aos 30 anos de idade, no St. Mark’s Hospital foi “Oswald Vaughan Lloyd-Davies“ (1.905-1.987) (fig. 141).


Figura 143: Retrato do cirurgião inglês, O. V. Lloyd-Davies

Foi responsável pela criação de vários instrumentais para as cirurgias colorretais, além de ter desenvolvido um retossigmoidoscópio com a fonte proximal de luz. Com grande experiência nas cirurgias de amputação de reto, desenvolveu para essas operações uma posição de litomia-Trendelenburg que, até os dias atuais, tem o seu nome.

- Em 1.915, nasceu na Inglaterra, “Bryan N. Brooke“, que formou-se médico em Cambridge e tornou-se cirurgião do “St. Bartholomew Hospital“ em 1.940. Tornou-se chefe da cirurgia desse famoso hospital de Londres, em 1.963, onde publicou seus importantes estudos sobre a Retocolite Ulcerativa e a doença de Crohn, em especial, as técnicas para construção de colostomias continentes. Também publicou um livro sobre o câncer colorretal (fig. 142).


Figura 144: Livro de autoria do cirurgião Bryan N. Brooke

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“Wiliiam Ernest Miles“ (1.869-1.947) (fig. 145) foi, provavelmente, o epônimo melhor reconhecido da cirurgia colorretal. Ele nasceu na cidade de Trinidad, nas Índias Orientais Britânicas.


Figura 145: Retrato do cirurgião inglês William E. Miles

Formou-se médico em 1.891 e entrou para o Royal College of Surgeons of England com 25 anos. Trabalhou no Gordon Hospital for Diseases of the Rectum e no Royal Cancer Hospital. Publicou importantes trabalhos de anatomia, patologia e cirurgia sobre a doença hemorroidária e as fístulas anais. No entanto, foi uma técnica operatória padronizada por ele em 1.906, para o tratamento do câncer do reto baixo, a “amputação abdomino-perineal do reto“ que perpetuou seu nome.

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Nascido em Paris, “Henri Hartmann“ (1.860-1.952) (fig. 146) formou-se médico na Universidade de Paris em 1.887.


Figura 146: Retrato do cirurgião francês Henri Hartmann

Trabalhou no hospital Hôtel Dieu, tornando-se chefe do departamento de cirurgia em 1.909. Teve enorme prática, com mais de 1.000 cirurgias anuais, em 20 anos de carreira. Pelos seus vários trabalhos e livros em feridas de guerra, ginecologia e câncer, teve reconhecimento internacional e seu hospital foi referência em todo o mundo. Descreveu a técnica, que até o hoje tem o seu nome, da “sigmoidectomia com colostomia terminal proximal e fechamento do coto retal“.

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O início do século passado foi pródigo também, na criação de centros médicos especializados em coloproctologia em todo mundo, sendo alguns dos principais:

- “Charles Horace Mayo“ (1.865-1.939) (fig. 147), nasceu em Rochester, Minnesota, filho de “William Worral Mayo“, imigrante inglês que trabalhou como médico em sua clínica em Rochester desde 1.855.


Figura 147: Foto do cirurgião norte-americano C. H. Mayo

Formou-se médico em Chicago pela Northwestern University em 1.888. Retornou a Rochester para trabalhar com seu pai e irmão. A clínica da família passou a ser conhecida como “Mayo Clinic“, em 1.903. Destocou-se como excelente cirurgião coloproctológico, realizando cirurgias de alta complexidade, fazendo o nome de sua clínica ganhar destaque mundial.

- Louis A. “Buie” (1.890-1.975) (fig. 148), nasceu em Kingstree, Carolina do Sul em 30 de julho de 1.890. Formou-se médico em 1.911, pela Universidade da Carolina do Sul.


Figura 143: Foto do coloproctologias Louis A. Buie

Ele, no ano de 1.916, a pedido de Mayo, cria o serviço de Coloproctologia da “Mayo Clinic”. Foi responsável pelo desenho de vários modelos de retossigmoidoscópios, mesa para exame proctológico e fórceps para biópsias retais. Foi duas vezes presidente da American Proctology Society (hoje American Society of Colon and Rectum Surgerons) e fundador e editor da importante revista de coloproctologia, a Diseases of the Colon and Rectum.

- Em 1.919, Raoul “Bensaude” (fig. 149) (1.866-1.938), nasceu em Ponta Delgada nos Açores Portugueses e formou-se médico em Paris. Na França, se notabilizou como cirurgião e criou um centro especializado em coloproctologia, no Hospital Saint Antoine, em Paris, onde começou a tratar as hemorróidas internas, por meio de injeções esclerosantes.


Figura 149: Retrato do cirurgião Raoul Bensaude


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    É nessa época, 1.914, que a Coloproctologia brasileira, tem seu pioneiro, o médico pernambucano Raul “Pitanga Santos” (fig. 150), clinicando e operando na cidade do Rio de Janeiro.


    Figura 150: Retrato do médico pernambucano Raul “Pitanga Santos” pioneiro da coloproctologia brasileira

    A “Sociedade Brasileira de Coloproctologia” (fig. 151) é fundada em 12 de setembro de 1.934, com o nome de “Sociedade Brasileira de Proctologia” também no Rio de Janeiro, na presença de vinte médicos, entre os quais: Leão de Aguiar, Bueno Brandão e Pinto Rocha. Porém, o início da “II Guerra Mundial“, em 1936, impediu suas atividades científicas. Somente terminada a guerra, em 30 de Outubro de 1.945, durante um congresso científico na Bahia, foi eleito seu primeiro presidente, o médico Sylvio “D'Ávilla”. A partir de então, esta sociedade passa a contribuir no desenvolvimento, aprimoramento e divulgação dessa especialidade no Brasil.


    Figura 151: Logo da Sociedade Brasileira de Coloproctologia

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    Em todo esse passeio por 5.000 anos de história documentada da Coloproctologia, permanecem atuais e válidas as palavras proferidas no século IV a.C., pelo filósofo grego “Aristóteles”:

    “O ontem como hoje, o hoje como amanhã, é sempre resultado de um esforço presente na história da humanidade: o esforço pelo conhecimento que define e diferencia a criatura humana”.


    Leituras recomendadas

    - Alabor GF. História sucinta de la Proctologia. In: Lentini, J (ed). Temas de Coloproctologia. Fontalba, Barcelona, 1982, p.12-38.
    - Entralgo L. História Universal de la Medicina. Salvat, Madrid, 1976, vol.I-VI.
    - “Grandes Personagens da História Universal”. Mondadori, Milão, 1972, vol.I-V.
    - “História em Revista”. Time-Life Livros, Rio de Janeiro, 1993, vol.III,VIII, XIV.
    - Inglis B. A History of Medicine. World, New York, 1965.
    - Larousse Cultural. Universo, São Paulo, 1998, vol. I-VIII.
    - Leão PHS. Hemorróidas: fatos e ficções. UFC, Fortaleza, 1988, p.20-22 e 105-107.
    - Lentini J. Historia de la Cirugía Anorrectal. In: Hequera JA, Dezanzo V. (eds) Enfermidades Quirurgicas de la Region Anal. Akadia, Buenos Aires, 1997.
    - Lyons AS, Petrucelli, RJ. Medicine, An Illustred History. Harry N. Abrams, New York, 1987.
    - Melo JMS. A Medicina e sua História. Publ. Científicas, Rio de Janeiro, 1989.
    - Quilici FA. Colonoscopia. In: Sobed (ed). Endoscopia Digestiva. Medsi, Rio de Janeiro, 1994.
    - Quilici FA. Colo-Proctologia: Estórias da História. Rev br Coloproct, 1994, 14(1):43-45.
    - Quilici FA. Estórias da Coloproctologia. Rev Cienc Med, PUC-Camp, 1994, 3(2):47-52.
    - Quilici FA e Reis Neto JA. Atlas de Proctologia. Lemos, São Paulo, 2000.
    - Quilici FA, Cordeiro F e Quilici LCM. História da Doença Hemorroidária na Humanidade. In: Cruz, GMG. Doença Hemorroidária. Yendis Ed, São Paulo, 2008
    - Quilci FA, Reis Neto JR, Quilici LCM. História da Coloproctologia. In: Campos FGCM, Regadas FSP, Pinho M. Tratado de Coloproctologia. Atheneu ed, São Paulo, 2012.
    - Rutkow IM. Surgery. An Illustrated History. Mosby, St. Louis, 1993.
    - Thorwald J. O Século dos Cirurgiões. Hemus 3º ed, São Paulo, 1986.
    - Thorwald J. O Segredo dos Médicos Antigos. Melhoramentos 2º ed, São Paulo, 1990.
    - Zimmerman LM, Veith I. Great Ideas in the History of Surgery. Dover, New York, 1967.



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