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Editorial de Prevenção de Câncer Colorretal

Artigo comentado pela Dra. Marlise Mello Cerato Michaelsen





Yu-Hua Li, Yin-Bo Niu, Yang Sun, Feng Zhang, Chang-Xu Liu, Lei Fan, Qi-Bing Mei. Role of phytochemicals in colorectal cancer prevention. World J Gastroenterol 2015 August 21; 21(31): 9262-9272



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O câncer colorretal (CCR), ou de intestino, conforme estatísticas recentes, é o quarto tumor maligno mais comum no mundo, terceiro tipo mais frequente nos EUA.
Esse tipo de câncer tem uma incidência anual de 1,2 milhões de novos casos e 600.000 mortes.
O câncer colorretal é o segundo tipo que mais mata homens e mulheres após o tumor de pulmão, tendo uma sobrevida média de 8.2% em 5 anos.

O número de casos novos de câncer de cólon e reto estimado para o Brasil em 2016 é de 16.660 casos em homens e de 17.620 em mulheres. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, o câncer de cólon e reto em homens é o segundo mais frequente (após próstata e pulmão) e o segundo nas mulheres (após mama), de acordo com os dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA).

Apesar da evolução dos tratamentos e do alto índice de diagnóstico precoce, o câncer colorretal vem mantendo urna curva ascendente nos países ocidentais. Em muitas áreas de baixo risco, como Espanha, alguns países da Europa e Ásia oriental, a incidência está aumentando muito, assim corno na China e Japão.

Estudos realizados em japoneses que migraram para os EUA, judeus asiáticos, imigrantes em Israel e europeus orientais que foram para a Austrália, revelaram que estes indivíduos adquiriram as taxas de câncer colorretal do país que eles adotaram. Não existem dúvidas que influências ambientais, principalmente a dieta, são responsáveis por estas taxas.

A neoplasia colorretal e seus precursores, os pólipos adenomatosos, são doenças multifatoriais, sofrendo influência de agentes externos, ambientais e dietéticos e elementos internos, alterações somáticas e hereditariedade. Vários autores descreveram que somente 5-10% dos tumores são causados por defeitos genéticos hereditários e que o restante 90-95% são esporádicos, causados por mutações genéticas no indivíduo, sob influência de fatores ambientais, alimentação e estilo de vida, o que apresenta uma grande oportunidade para prevenção.

Aproximadamente 70% da incidência dos tumores de intestino está associada a dieta, sendo que alguns tipos de alimentos aceleram o crescimento dos tumores e outros inibem. Sendo esta a importância deste artigo da WJG (World Journal of Gastroenterology) de 2015, que trata de do papel dos Fitoquímicos na prevenção do câncer colorretal.

Quanto à influência da alimentação, reconhece-se que a dieta ocidental caracterizada por alto teor de gorduras saturadas / proteína de origem animal (carne vermelha, carne processada) e baixo teor de fibras (frutas, vegetais e cereais) está associada a maior potencial carcinogênico. Fatores relacionados ao estilo de vida como fumo, sedentarismo, obesidade, consumo excessivo de álcool e ingestão de aminas heterocíclicas e hidrocarbonetos aromáticos também foram incriminados. Por outro lado, são considerados fatores protetores o cálcio, vitamina D, folatos, selênio, vitaminas e antioxidantes

Prevenção Primária

A prevenção primária do CCR consiste na identificação dos fatores de risco e na promoção de modificações no estilo de vida, de hábitos e na composição da dieta. Muitos estudos, dentre eles, este que é uma atualização da atividade de componentes não-nutricionais presentes na dieta, na prevenção de doenças degenerativas, como o câncer.

Esta classe de moléculas heterogêneas, conhecidas como fitoquímicas incluem as vitaminas (carotenóides) e os polifenóis, como os flavonóides, fitoalexinas e componentes ricos em ácidos fenólicos e sulfúricos que tem ação antioxidante. Mais de 10.000 fitoquímicos já foram descritos, destes mais de 6.000 estão incluídos na classe dos flavonóides. Estão amplamente presentes em alimentos derivados de plantas e bebidas, como as frutas, vegetais, chás, vinhos, cerveja, chocolate e em muitos suplementos alimentares e remédios naturais, fitoterápicos. Este amplo grupo de substâncias fitoquímicas interferem na progressão tumoral atuando diretamente nas células tumorais, assim corno modificando a rnicrobiota tumoral e criando condições fisiológicas que são hostis ao crescimento tumoral.

A quimioprevenção, que é definida como a ingestão de agentes estranhos, com o objetivo de restringir a indução, prevenir e diminuir a progressão do câncer ou reverter a carcinogênese a um estágio pré-maligno, tem sido objeto de estudo da comunidade científica. O câncer colorretal é um excelente candidato, devido ao longo período pré-cancerígeno e a presença de lesão pré-maligna, o que permite a realização da Prevenção.

Quimioprevenção com Componentes Naturais

Segundo este artigo, existem inúmeros alimentos e agentes ativos das especiarias indianas que estão associados à prevenção do câncer colorretal. Este artigo trata destas diferentes substâncias como a curcumina (curry), piperina (pimenta), ginseng, a tumerina (açafrão), berberina (encontrada em raízes e cascas de plantas), dentre outros, o que explica a baixa incidência de câncer de intestino nos indianos.

Curcumina-Curry

Este agente dá uma coloração amarela ao alimento. Os autores descrevem que a curcumina tem um fator protetor contra muitos carcinógenos que causam os tumores gastrintestinais. É derivada da tumerina, açafrão, exercendo atividades diferentes e ambas de quimioprevenção. Esta substância também exerce fator protetor em pacientes com Doenças Inflamatórias Intestinais, Polipose Adenomatosa Familiar e Pancreatite. O mecanismo de ação da curcumina tem sido estudado intensamente, atuando na alteração da cascata inflamatória, na inibição da COX2, agindo, além disto, nas interleucinas, na proliferação celular e inibindo o crescimento das células neoplásicas, não apresentando toxicidade relacionada a dose, neste e em outros estudos descritos. É um agente promissor na quimioprevenção dos tumores colorretais. Ainda não se sabe a dose exata, mas se acredita que a dose de 3,6 g por dia exerça eficácia farmacológica.

Gingerol-Gengibre

O artigo descreve que a raiz do gengibre possui inúmeras propriedades medicinais, é utilizada em muitos países para auxiliar na digestão e na emêse gravídica. Tem potencial antioxidante. anti-inflamatório. anti-emético, anti-úlcera. cardiotônico, anti-hipertensivo, hipoglicemiante, antilipidêmico e propriedades imunoestimulantes. Algumas destas ações exibem atividade anticancerígena, assim como a tumerina, induzem a apoptose e tem um papel importante na prevenção e tratamento dos tumores.

Piperina-Pimenta

A pimenta negra, também tem sido utilizada há muito tempo na alimentação indiana, com inúmeras propriedades benéficas, dentre elas, melhorar a digestão por estimulo de enzimas pancreáticas, facilitar a absorção de nutrientes e diminuir o estresse oxidativo.

Berberina

Encontrada em raízes e cascas das plantas medicinais e alguns tipos de uvas. O artigo relata a sua importância na prevenção do câncer colorretal devido a diminuir a proliferação celular e induzir a apoptose. A maior parte dos estudos descreve a combinação do uso de nutrientes naturais, como tendo um potencial protetor mais eficaz do que a utilização de um elemento único. Estas substâncias possuem atividade antioxidante, antimutagênica e anticarcinogênica,

Polissacarídeos

O consumo da maçã, um polissacarídeo, diminui o risco de câncer de intestino, tanto a fruta quanto o suco atuam diminuindo os focos de criptas aberrantes, a hiperproliferação celular e os danos no DNA, principalmente no cólon distal.

Cogumelos

O cogumelo, outro polissacarídeo, vem sendo utilizado como um alimento saudável ou suplemento há muito tempo na prevenção e tratamento de inúmeras doenças, como o câncer, a aterosclerose, hipertensão e diabetes. A sua atividade na prevenção no câncer colorretal se dá através da supressão da atividade proliferativa anormal das células pré-neoplásicas em neoplásicas. No tratamento dos tumores, atuam na indução da apoptose, ou morte celular.

Saponinas

As saponinas estão presentes em inúmeras espécies de plantas. Os principais representantes das saponinas são o ginseng e o ginseng vermelho. Tem atividade na indução da apoptose das células tumorais. Atuam também na angiogênese e possuem atividade antiproliferativa.

A soja e derivados, outro grupo de saponinas, estão relacionados a redução do câncer de cólon. Estas substâncias atuam na diminuição da resposta inflamatória e na supressão celular.

Resveratrol

Assim como vários outros estudos, este descreve que o resveratrol é um polifenol encontrado nas uvas, frutas com cascas escuras, mirtilos, morangos, vinho tinto, amendoim e chocolate amargo. São antioxidantes, atuam no combate de radicais livres, sendo benéficos contra muitas doenças como o câncer, a obesidade, diabetes e as doenças cardiovasculares.

Atuam na prevenção dos tumores, possuem efeito tanto inibindo o início da carcinogênese, quanto na progressão. Diminuem a resposta inflamatória, reduzem a atividade da COX2, diminuem a expressão do Kras, dentre outras atividades. Resveratrol, na dose de 0,5 a 1,0 grama, possui efeito farmacológico no trato gastrintestinal, no entanto, mesmo grandes doses de resveratrol são seguras.

Quercetina

É um dos maiores flavonóides da dieta, sendo considerado um polifenol encontrado em muitas frutas, vegetais e bebidas como o chá e o vinho. A quercetina tem papel na prevenção da câncer, inibindo o início da turnorogênese, através de sua atividade antioxidante, ant-iinflamatória, antiproliferativa e pró-apoptótica. Sendo, também, um potente inibidor da COX2. Sendo assim, este é um dos mecanismos que explicam que o regular consumo de frutas e vegetais protege contra o câncer colorretal,

Fibras, grãos, vegetais e frutas

Existem muitas teorias que explicam o efeito protetor das fibras contra o câncer colorretal. Burkitt em 1969 já vinha descrevendo uma associação inversa entre a ingesta de grande quantidade de fibras e a baixa incidência de câncer colorretal. Esta hipótese se baseava na redução do tempo de trânsito colônico, diluição do conteúdo intestinal e estimulação da fermentação das bactérias anaeróbias, com aumento da produção de ácidos graxos de cadeia curta (acetato, propionato e butirato). Muitos estudos caso-controle  comprovaram esta teoria e descreveram uma redução de 50% no risco de câncer colorretal. Por outro lado, grandes estudos de coorte falharam em demonstrar este efeito protetor tanto comparando a ingesta total de fibra, quanto com frutas e vegetais. Esta dificuldade se explica, em parte, pela grande quantidade de polifenóis e outros agentes fitoquímicos também presentes nestes alimentos, com propriedades anticâncer.

Uma revisão sistemática de 13 estudos prospectivos, com seguimento de 6 a 20 anos, revelou que a ingesta de fibras é inversamente associada ao risco de câncer colorretal, ajustado por idade. Contudo, este efeito protetor desaparece quando outros fatores de risco, relacionados a dieta, são levados em conta. Sendo assim, as fibras isoladas não têm uma grande alteração na incidência do câncer de intestino, somente uma pequena redução com a ingesta de cereais, mas se separarmos por localização do tumor, as frutas e vegetais estão associadas com a redução da câncer da porção mais distal, no entanto não altera a incidência de tumores proximais.

A orientação atual é para a grande ingesta de frutas e vegetais, associado aos grãos e cerejas, em torno de 25 a 30 gramas por dia, ou 14 gramas/1000Kcal, devido às suas propriedades saudáveis. Possuem grande concentração de vitaminas C, A, minerais, eletrólitos e agentes fitoquímicos, com ação antioxidante. Além de serem a fonte de fibra da dieta, com todos seus efeitos protetores e benéficos, diminuírem o risco de doença coronariana o outras doenças crônicas.

Recomendo a leitura do artigo, pois com atitudes simples e do cotidiano podemos agir como especialistas e corno Sociedade Brasileira de Coloproctologia na prevenção primária do câncer colorretal.

As recomendações atuais são:
- Consumir diariamente fibras, frutas e vegetais (25-30 g/dia);
- Praticar atividade física regular;
- Evitar gorduras saturadas, redução para até 30% das calorias totais da dieta;
- Evitar carne vermelha, processada e, principalmente, muito assada;
- Consumir peixe 2 a 3 vezes/ semana;
- Não fumar;
- Tornar 2 a 3 litros de água/ dia;
- Não ingerir bebidas alcoólicas em excesso;
- Manter-se no peso ideal, evitar a obesidade.

 




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