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Maio Roxo: estudo revela que cumulativo de casos de doenças inflamatórias intestinais aumentou 14,8% ao ano no Brasil no período de 9 anos

Sociedade Brasileira de Coloproctologia alerta que essas doenças, mais prevalentes em adolescentes e adultos jovens, devem ser diagnosticadas precocemente para um tratamento mais efetivo a fim de se evitar complicações

As doenças inflamatórias intestinais (DII) acometem mais de 5 milhões de pessoas em todo o mundo, e no Brasil tem sido observado um aumento na prevalência, número que corresponde à soma de casos novos e casos já existentes. As DII mais comuns são a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa. Elas se caracterizam pela inflamação de diferentes segmentos do trato gastrointestinal, principalmente nos intestinos.

Para conscientizar sobre a importância do diagnóstico precoce das DII, a Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP) realiza a campanha Maio Roxo – em 19 de maio é celebrado o Dia Mundial das Doenças Inflamatórias Intestinais.

“As doenças inflamatórias intestinais não têm cura, mas a confirmação do diagnóstico de forma precoce permite um tratamento mais efetivo e melhor qualidade de vida ao paciente”, ressalta Dr. Eduardo Vieira, presidente da SBCP.

Prevalência e incidência
“No Brasil, a prevalência das doenças inflamatórias intestinais chega a 100 casos para cada 100 mil habitantes no sistema público, sendo a maior concentração nas regiões Sudeste e Sul. Em alguns países desenvolvidos, a prevalência pode chegar a até 1% da população. Já a incidência média (ocorrência de novos casos) em 2020 no país foi de 7 casos para retocolite ulcerativa e 3 para doença de Crohn para cada 100 mil habitantes”, alerta Dr. Paulo Gustavo Kotze, membro titular da SBCP e um dos autores de estudo que analisou as taxas de incidência e prevalência de DII no Brasil de 2012 a 2020, tendo como base dados provenientes do DataSUS*.

O estudo analisou informações de 212.026 pacientes com DII de ambos os sexos (140.705 com doença de Crohn e 92.326 com retocolite ulcerativa). A pesquisa apontou que a incidência de DII subiu de 9,41 por 100 mil habitantes em 2012 para 9,57 por 100 mil habitantes em 2020, o que corresponde a uma variação percentual anual média (AAPC na sigla em inglês) de 0,80%. Já a prevalência de DII aumentou de 30,01 por 100 mil habitantes em 2012 para 100,13 por 100 mil habitantes em 2020, correspondendo a uma variação percentual anual média de 14,87%.

Pacientes incluídos no estudo*


Em azul, pacientes masculinos; em laranja, femininos

Prevalência de DII no Brasil*


Em azul, DII em geral; em verde, retocolite ulcerativa; em amarelo, doença de Crohn

Incidência de DII no Brasil*


Em azul, DII em geral; em verde, retocolite ulcerativa; em amarelo, doença de Crohn

Fatores de risco
As DII são mais frequentes em adolescentes e adultos jovens (15 a 40 anos) e sua causa está relacionada a fatores diversos, como genéticos, imunológicos, ambientais, alimentares e alteração da flora intestinal (disbiose intestinal).

O histórico familiar de DII em parentes de primeiro grau aumenta levemente o risco de desenvolvimento das doenças. Já o tabagismo é comprovadamente fator de risco para agravamento da doença de Crohn.

Sintomas
Apesar de serem semelhantes, as DII possuem diferenças. A retocolite ulcerativa acomete o intestino grosso (cólon) e reto, enquanto a doença de Crohn pode atingir todo o trato digestório (desde a boca até o ânus), sendo mais prevalente no intestino delgado (íleo), colón e região perianal.

Na retocolite ulcerativa apenas a camada mais superficial que reveste o intestino (mucosa) é acometida. Já na doença de Crohn, todas as camadas intestinais (mucosa, submucosa, muscular e serosa) podem ser atingidas pela inflamação, aumentando o risco de complicações como estreitamentos e perfurações intestinais.

Diarreia crônica com presença sangue e muco ou pus, com períodos de melhora e piora, associadas a cólicas abdominais, urgência evacuatória, falta de apetite, fadiga e emagrecimento costumam ser os sintomas mais frequentes. Em casos mais graves, observam-se ainda anemia, febre, desnutrição e distensão abdominal. Cerca de 15 a 30% dos pacientes com DII podem apresentar manifestações extraintestinais como dor nas articulações, lesões de pele ou oculares.

Diagnóstico
Para confirmar o diagnóstico das DII o especialista analisa a história clínica e solicita exames laboratoriais, endoscópicos (endoscopia digestiva alta e colonoscopia) com biópsias, além de exames radiológicos (tomografia ou ressonância magnética com foco no intestino).

“É importante salientar que os sintomas das DII são similares aos de doenças comuns, como síndrome do intestino irritável e diarreias infecciosas, por isso é fundamental uma análise global do paciente”, acrescenta Dr. Kotze.

Tratamento
Apesar de não haver cura para as DII, seu tratamento adequado permite que o paciente alcance a remissão clínica, ou seja, o controle do processo inflamatório e dos sintomas.

O tratamento é dividido basicamente em indução da remissão e sua manutenção. Na indução, podem ser prescritos anti-inflamatórios tópicos, corticoides e medicamentos injetáveis (terapia biológica). Na fase de manutenção, as medicações utilizadas podem ser as mesmas, com exceção dos corticoides (devido aos seus efeitos colaterais), podendo associar imunossupressores e biológicos.

“Mesmo com adequado tratamento clínico, os desafios de melhora persistem e uma parte significativa dos pacientes ainda necessita de diversos tipos de cirurgia para o seu tratamento. A importância do diagnóstico e tratamentos precoces reside na possibilidade de se evitar complicações e consequentes cirurgias”, alerta o especialista.

Dieta
A dieta possui papel importante no tratamento das DII, principalmente nos períodos de fase aguda da doença. Bons hábitos alimentares podem prevenir o desenvolvimento da doença e manter a remissão em pacientes controlados. A melhor orientação dietética é dada pela equipe multidisciplinar de médicos e nutricionistas, pois a exclusão ou inclusão de alimentos da dieta pode variar de acordo com a fase e gravidade da doença.

Ações da campanha Maio Roxo
Durante o mês de maio a SBCP realizará ações em suas redes sociais para esclarecer o público sobre as DII (www.instagram.com/portaldacoloproctologia/ e https://www.facebook.com/portalcoloprocto).

 *Referência
AB Quaresma, AOMC Damiao, CSR Coy, DO Magro, DA Valverde, R Panaccione, SB Coward, SC Ng, GG Kaplan, PG Kotze. Temporal Trends in the epidemiology of Inflammatory Bowel Diseases in the public healthcare system in Brazil: A large population-based study. DOP 41, ECCO congress, 2021. Disponível em: https://en.x-mol.com/paper/article/1398004533374205952

 

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