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Maio roxo: portadores de doenças inflamatórias intestinais são do grupo de risco para Covid-19

Sociedade Brasileira de Coloproctologia alerta para importância de diagnóstico. Faixa-etária mais propensa à doença é jovem, entre 20 e 40 anos 

Em 19 de maio é celebrado o Dia Mundial das Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), problema que afeta mais de 5 milhões de pessoas no mundo. Devido à data, a Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP) realiza há alguns anos a ação Maio Roxo, de conscientização das DII, sendo as principais a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa. Portadores dessas condições são do grupo de risco para a Covid-19, pois são imunossuprimidos.

No Brasil, os estudos epidemiológicos são escassos e, de modo geral, restritos a determinadas regiões do país. A prevalência de DII no estado de São Paulo, por exemplo, é de 52,5 casos/100 mil habitantes, desses, 53,8% portadores de retocolite ulcerativa e 46,2% de doença de Crohn (segundo tese de Rodrigo Gasparini*).

Este ano, a SBCP alerta que ter o diagnóstico de DII é importante para saber ser do grupo de risco para a Covid-19, principalmente porque os mais atingidos pelas doenças inflamatórias do intestino são jovens – entre 20 e 40 anos. A segunda faixa-etária mais comum para as doenças é entre 55 e 75 anos.

“Muitos pacientes com DII aguardam cirurgia, e os riscos de desenvolver infecção pulmonar grave e hospitalização prolongada são preocupantes, para eles que são imunossuprimidos pela natureza da doença e devido a medicamentos comumente usados. Deve-se ter muito cuidado com os pacientes que fazem terapia combinada (corticoide, imunossupressor e imunobiológicos), pois ficam expostos e propensos a infecções graves. O tratamento cirúrgico deve ser considerado quando estritamente necessário, e as cirurgias eletivas devem ser adiadas conforme sugerido pela maioria das diretrizes cirúrgicas. Deve-se ainda evitar contato com pessoas doentes, manter o distanciamento social, boa higiene das mãos e uso de EPI”, ressalta o coloproctologista Dr. Carlos Walter Sobrado, membro titular e ex-presidente da SBCP.

Já para os pacientes que estão com o tratamento instituído a recomendação é mantê-lo e procurar hospitais e atendimentos médicos se houver piora dos sintomas.

Ainda não se sabe as causas das DII. “Algumas teorias incluem fatores genéticos, defeitos no sistema imunológico, fatores ambientais (tabagismo, antibióticos, infecções na infância) e alteração da flora intestinal (chamada disbiose intestinal)”, explica Dr. Sobrado, que também é professor da FMUSP e coordenador do Ambulatório de Doenças Intestinais Inflamatórias da Disciplina de Coloproctologia do Hospital das Clínicas da FMUSP. Ele acrescenta que a existência de membros na família com DII aumenta as chances de um indivíduo sofrer o problema. Importante ressaltar que assim como fatores emocionais e psicológicos (teoria psicossomática), a dieta e o estresse podem agravar os sintomas, mas não causam o problema.

Cigarro é fator de risco

Há evidências científicas de que o tabagismo pode ser considerado fator de risco para desenvolvimento da doença de Crohn. “Orientamos os pacientes com DII a terem hábitos de vida saudável com relação a alimentação, horas de sono, atividades físicas, aderência aos medicamentos prescritos pelo médico e nas crises de agudização da doença, avaliar a intolerância alimentar (como leite e derivados, glúten etc.)”, ressalta.

Sintomas

Diarreia crônica (maior que 30 dias), diarreias frequentes e recorrentes com presença sangue e muco ou pus associadas a cólicas abdominais, flatulência, urgência evacuatória, falta de apetite, fadiga e emagrecimento são sintomas frequentes em portadores de DII. Os casos mais graves podem ser acompanhados de anemia, febre, desnutrição e distensão abdominal.

De 15 a 30% dos pacientes com DII podem apresentar manifestações extraintestinais como dor nas articulações, lesões avermelhadas na pele e problemas oculares (olhos vermelhos).

Diagnóstico e tratamento

A confirmação do diagnóstico depende da história clínica; exames laboratoriais, endoscópicos (endoscopia digestiva alta, colonoscopia) e radiológicos (tomografia ou ressonância magnética nuclear); e biópsia.

Como as DIIs não têm cura, o tratamento tem como objetivo a remissão clínica, ou seja, manter o paciente livre dos sintomas sem o uso de corticoides a fim de cicatrizar a mucosa intestinal.

Em geral são utilizados os derivados salicílicos, corticosteroides e imunossupressores. “Nos casos de infecções associadas, abscessos e fístulas anais os antibióticos estão indicados. Nos casos moderados a grave que não respondem aos medicamentos acima citados, pode-se tentar corticoides por via endovenosa e nos casos não responsivos devemos considerar o uso das drogas imunobiológicas. No arsenal terapêutico das DIIs, existem medicamentos imunobiológicos com vários mecanismos de ação. Importante ressaltar que novas drogas vêm sendo estudadas para serem utilizadas no manejo da doença de Crohn e retocolite ulcerativa, com novos mecanismos de ação e que ofereçam segurança, uma vez que serão utilizadas em pacientes imunodeprimidos e por longos períodos”, explica o coloproctologista.

Transplante fecal

A eficácia do transplante fecal para pacientes com DII vem sendo pesquisada, mas ainda não há um consenso da comunidade científica mundial.

“O transplante é uma alternativa eficaz para o tratamento da infecção recorrente e refratária pelo Clostridium difficile e consiste na introdução do material fecal (microbiota intestinal) de um doador saudável em um paciente portador dessa infecção, com objetivo de restaurar o ecossistema interno. Com relação ao uso desse tipo de tratamento nas DII, os resultados são díspares e são necessários novos estudos sobre a eficácia desses transplantes fecais”, esclarece Dr. Sobrado.

*Disponível em: https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/152905/gasparini_rg_dr_bot.pdf?sequence=3

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